
POR FRANCISCO JOSÉ
FOTOS ANA FLOR
Nosso repórter descreve seu
encontro com esses primatas
ameaçados, criaturas imponentes
e dóceis que devoram urtigas
no topo de velhos vulcões
As nuvens escondem o topo da
floresta, a 3.700 metros de
altitude. Faz frio. Os guias,
que comentam entre si as dificuldades
da escalada e os
riscos que temos pela frente, deixamnos
ainda mais ansiosos.
Atravessamos o Oceano Atlântico e viajamos dez horas de carro, por estradas
de terra, num país em guerra civil, para chegar até ali. Estamos agora diante
de vulcões cobertos pela selva, onde vivem os maiores primatas do planeta.
Sentimo-nos no filme Na Montanha dos Gorilas, que conta a saga da pesquisadora
americana Dian Fossey, que dedicou a vida a proteger esses animais do
extermínio e terminou morta por caçadores.
Montamos uma expedição exclusiva para chegar a esses animais, no coração
da selva. Por exigência da direção do parque nacional, seguiríamos pela mata
acompanhados por um pequeno séquito de carregadores, guias e seguranças
armados. Ao todo, 12 pessoas. Dois guias nativos partiram na frente, de madrugada,
a fim de localizar os gorilas e avisar-nos pelo rádio. Os dados são
registrados no GPS, o aparelho que é capaz de localizar com grande exatidão
um ponto perdido na selva, cruzando as informações de diferentes satélites.
A longa caminhada pela mata é um desafio crescente. No início, seguimos
por uma trilha. Sempre para o alto, e num piso lamacento, irregular, escorregadio.
Caímos várias vezes, arrancando risos dos africanos, que raramente eram
flagrados deslizando pela encosta lisa. Nossa equipe, formada pelo cinegrafista
Antônio Henrique, pela produtora Ana Flor (que mora no Quênia) e por mim,
sabia muito bem que a jornada que tínhamos pela frente seria cansativa, dolorosa,
mas, se tudo corresse bem, recompensadora...
URTIGAS E COBRAS
As tais montanhas de origem vulcânica ficam na fronteira
de três países: Ruanda, Uganda e Congo (o antigo Zaire).
Após três horas de escalada, a primeira chamada pelo rádio.
Os nativos se comunicam pelo idioma swahili, para nós,
brasileiros, impenetrável. Depois, vem a tradução de Obama
(apelido que demos ao chefe dos guias, por sua semelhança com
o candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos).
– Tenho duas notícias dos guias avançados. Uma boa e a
outra não muito boa... – ele disse.
– Qual é a boa?– perguntei.
Obama respondeu:
– A boa é que os guias avançados conseguiram
localizar o grupo com 27 gorilas. O maior bando,
como você queria...
– E qual a notícia não muito boa?
– Os gorilas estão longe daqui, na outra montanha.
Vamos ter de descer e subir do outro
lado, sempre pela selva, que vai ficando mais
fechada a cada passo. Temos de deixar a trilha,
para seguir as indicações do GPS em linha
reta. Se continuarmos no mesmo ritmo, sem
parar, são mais três horas de caminhada. Prendam
as calças por dentro das botas e amarrem
com essas tiras, pois vamos cruzar uma área
com muita formiga e urtigas.
E fez uma assustadora recomendação final:
– Fiquem de olhos bem abertos e vejam onde pisam, pois nessa área há muitas
serpentes venenosíssimas.
Meia hora depois, correria e gritos no idioma nativo. Os guias deram de cara
com uma cobra enrolada num galho e voltaram correndo. Aí foi a vez de nos
divertirmos com eles. Provoquei Obama, que parecia muito assustado:
– O que é isso, Obama? Vocês não têm medo dos gorilas e agora estão correndo
de uma cobra?
– Mas ela é muito venenosa. Se picar algum de nós, é morte certa. Vamos sair
daqui. Temos de dar a volta. Passar longe dela...
Perguntei se era a famosa serpente africana que lançava veneno nos olhos das
vítimas. Ele disse que não. Tomei, então, a iniciativa de afastar a cobra com um
pau e passamos por ali mesmo, sem ter de alongar ainda mais a caminhada. Só
então nossos amigos perceberam que, apesar de escorregar na lama, tínhamos
conhecimento de selva. E pararam de rir com nossas derrapadas.