Na montanha dos gorilas
Revista Fantástico - número 5

POR FRANCISCO JOSÉ
FOTOS ANA FLOR

Nosso repórter descreve seu
encontro com esses primatas
ameaçados, criaturas imponentes
e dóceis que devoram urtigas
no topo de velhos vulcões

As nuvens escondem o topo da floresta, a 3.700 metros de altitude. Faz frio. Os guias, que comentam entre si as dificuldades da escalada e os riscos que temos pela frente, deixamnos ainda mais ansiosos.

Atravessamos o Oceano Atlântico e viajamos dez horas de carro, por estradas de terra, num país em guerra civil, para chegar até ali. Estamos agora diante de vulcões cobertos pela selva, onde vivem os maiores primatas do planeta. Sentimo-nos no filme Na Montanha dos Gorilas, que conta a saga da pesquisadora americana Dian Fossey, que dedicou a vida a proteger esses animais do extermínio e terminou morta por caçadores.

Montamos uma expedição exclusiva para chegar a esses animais, no coração da selva. Por exigência da direção do parque nacional, seguiríamos pela mata acompanhados por um pequeno séquito de carregadores, guias e seguranças armados. Ao todo, 12 pessoas. Dois guias nativos partiram na frente, de madrugada, a fim de localizar os gorilas e avisar-nos pelo rádio. Os dados são registrados no GPS, o aparelho que é capaz de localizar com grande exatidão um ponto perdido na selva, cruzando as informações de diferentes satélites.

A longa caminhada pela mata é um desafio crescente. No início, seguimos por uma trilha. Sempre para o alto, e num piso lamacento, irregular, escorregadio. Caímos várias vezes, arrancando risos dos africanos, que raramente eram flagrados deslizando pela encosta lisa. Nossa equipe, formada pelo cinegrafista Antônio Henrique, pela produtora Ana Flor (que mora no Quênia) e por mim, sabia muito bem que a jornada que tínhamos pela frente seria cansativa, dolorosa, mas, se tudo corresse bem, recompensadora...

URTIGAS E COBRAS

As tais montanhas de origem vulcânica ficam na fronteira de três países: Ruanda, Uganda e Congo (o antigo Zaire). Após três horas de escalada, a primeira chamada pelo rádio. Os nativos se comunicam pelo idioma swahili, para nós, brasileiros, impenetrável. Depois, vem a tradução de Obama (apelido que demos ao chefe dos guias, por sua semelhança com o candidato democrata à Presidência dos Estados Unidos).

– Tenho duas notícias dos guias avançados. Uma boa e a outra não muito boa... – ele disse.

– Qual é a boa?– perguntei.

Obama respondeu:

– A boa é que os guias avançados conseguiram localizar o grupo com 27 gorilas. O maior bando, como você queria...

– E qual a notícia não muito boa?

– Os gorilas estão longe daqui, na outra montanha. Vamos ter de descer e subir do outro lado, sempre pela selva, que vai ficando mais fechada a cada passo. Temos de deixar a trilha, para seguir as indicações do GPS em linha reta. Se continuarmos no mesmo ritmo, sem parar, são mais três horas de caminhada. Prendam as calças por dentro das botas e amarrem com essas tiras, pois vamos cruzar uma área com muita formiga e urtigas.

E fez uma assustadora recomendação final:

– Fiquem de olhos bem abertos e vejam onde pisam, pois nessa área há muitas serpentes venenosíssimas.

Meia hora depois, correria e gritos no idioma nativo. Os guias deram de cara com uma cobra enrolada num galho e voltaram correndo. Aí foi a vez de nos divertirmos com eles. Provoquei Obama, que parecia muito assustado:

– O que é isso, Obama? Vocês não têm medo dos gorilas e agora estão correndo de uma cobra?

– Mas ela é muito venenosa. Se picar algum de nós, é morte certa. Vamos sair daqui. Temos de dar a volta. Passar longe dela...

Perguntei se era a famosa serpente africana que lançava veneno nos olhos das vítimas. Ele disse que não. Tomei, então, a iniciativa de afastar a cobra com um pau e passamos por ali mesmo, sem ter de alongar ainda mais a caminhada. Só então nossos amigos perceberam que, apesar de escorregar na lama, tínhamos conhecimento de selva. E pararam de rir com nossas derrapadas.



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