Marco Uchôa: Dias de luta
Revista Fantástico - número 4

POR MÁRCIA DAL PRETE

FOTOSMarco, desculpe, mas não estou pronta. Já repassei minhas anotações, fiz os últimos telefonemas, revi suas reportagens, mas ainda não peguei o tom. Preciso de um cigarro. Ainda não me livrei desse vício, como você. Vou colocar sua foto ao lado do laptop, tocar os presentes que você me deu. Tomar um gole de conhaque.

Sim, eu sei, você não bebia e não iria gostar de me ver tomando algo tão forte. Mas, juro, é dos bons. Francês. Preciso alimentar a ansiedade que me consome, mas, ao mesmo tempo, me impulsiona. Você entende bem o que é isso. Por trás de sua serenidade habitava um vulcão.

Fecho os olhos. Estou em Crateús, sertão do Ceará. É dia 14 de março de 1969 e você estava nascendo. Filho de dona Sebastiana e seu Aderson, irmão de Júnior. Sinto o cheiro da fogueira de São João. Vejo você, criança, de short branco, camisa puída, pé no chão, correndo na rua de terra batida.

Fecho os olhos. Vejo dona Sebastiana se despedindo para tentar a vida em São Paulo. Vocês, pequenos, grudados na barra da tia. Fecho os olhos e lá estão os dois irmãos, viajando para São Paulo, ao encontro de dona Sebastiana: você com 4, Júnior com 5 anos. Aqui começaria sua jornada.

MENINO PRODÍGIO
Normalmente, depoimentos sobre pessoas públicas que morreram só trazem elogios. A morte nos faz esquecer os pecados do outro. No caso do jornalista Marco Uchôa, se ele tinha uma imperfeição, era justamente a obsessão pela perfeição. Se tinha um desequilíbrio, era não dosar na medida trabalho e vida.

Era um prodígio. Antes dos 30 anos, passara pela redação de dois grandes jornais e brilhava no Fantástico. Econômico nos elogios, Luiz Nascimento, diretor do programa, diz dele: "Era um profissional brilhante, com ótimo texto e extremamente ético". "Tinha alma de repórter e era doce, sensível", afirma o amigo Lourival Sant'Anna, repórter especial de O Estado de S. Paulo.

A mãe se envaidece: "Ele tinha uma estrela, mas se esforçou muito para chegar aonde chegou." Como amiga e colega, devo acrescentar que só uma pessoa cativante como Marco seria capaz de promover manifestações de solidariedade como as que testemunhei na redação da TV Globo de São Paulo.

O poder de mobilizar as pessoas era um dom, como a vocação para a notícia. Quando chegou a São Paulo, foi com o irmão para a Casa da Criança, colégio interno na zona leste. A mãe não podia trabalhar e cuidar dos dois. No dia de visita, vestiam a melhor roupa e Júnior improvisava uma loção com pétalas de rosa para passar no caçula. "Ele sempre foi vaidoso", diz o irmão, com ternura.

Antes de dormir, as crianças da Casa encostavam o ouvido no chão para ouvir a TV da sala, embaixo do quarto: "Eu preferia os filmes, mas Marco não perdia uma edição do Jornal Nacional", conta Júnior.

A CARREIRA
Em 1989, ainda na faculdade, começou como rádio-escuta na Agência Folha. Era difícil para alguém da Agência escrever no jornal, mas Marco conseguiu e, persistente, chegou à editoria de Cidades. A jornalista Heloisa Helvécia, sua primeira chefe, conta que ele já era antenado nas questões do meio ambiente, sequer mencionadas nas redações da época: "Ele queria aprender."

Um ano depois, ele dava mais um salto. Foi trabalhar como repórter de Cidades no jornal O Estado de S. Paulo, subordinado ao jornalista Roberto Gazzi. "Marco era eclético, mas tinha olhar especial para histórias humanas, de gente desamparada", lembra Gazzi.

E os furos? No Estadão, foram muitos. Foi o primeiro repórter a denunciar a existência dos "pais de rua", adultos que contratam crianças para mendigar nos sinais. Sua reportagem sobre o tráfico no morro Dona Marta, no Rio, rendeu o convite para o Fantástico. Luiz Nascimento leu a matéria e sentenciou: "Esse cara tem peito." Marco aceitou. Arranjou óculos que não refletiam a luz e tratou de se adaptar ao veículo.

Tinha jogo de cintura, era gentil, espirituoso. Usou o senso de humor para fazer um traficante de armas falar ao programa. "Minha mulher não quer que eu abra o bico", disse o traficante. Ele respondeu: "Você, um bandidão, vai obedecer à mulher?" Foi o que bastou.

O ADEUS
Meses antes de saber do câncer, Marco foi convidado por Denise Cunha, hoje chefe de produção dos jornais locais de São Paulo, para fazer um Globo Repórter sobre acidentes de trânsito. Até hoje, ela guarda os e-mails trocados com o amigo em sua longa licença médica:

"Adivinha o que sobra, neste momento, para este seu amigo... Aquilo que falta na sua vida... TEMPO! Ele mesmo! Assim, posso aprender coisas novas, como meditar; mandar torpedos e surpreender; treinar inglês em filmes sem legenda... E assim vai..."

Marco descobriu a doença logo após a exibição do Globo Repórter. Nos dois anos seguintes, reencontrou amigos, fez outros, ficou mais próximo da mulher e do filho. "Ele percebeu que a vida não é só trabalho", diz Anna.

Fecho novamente meus olhos. Volto para aquela sexta-feira, quando você me chamou para ir ao hospital. Você estava na cama, sereno, e me disse que agora tinha mesmo de partir. Eu segurei sua mão e conversamos. Você me falou de sutileza e amizade. Eu te falei do quanto você era digno. Li para ti o cartão branco com a palavra "Amor", assinado por todos os que estavam na redação naquele dia. E saí do quarto sem querer admitir que aquilo foi uma despedida. Agora, só te vejo em sonhos.

* Márcia Dal Prete é editora do Jornal Nacional em São Paulo



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