
POR ALBERTO VILLAS
Marco Uchôa gostava de se vestir de preto-e-branco, de dar presentes cheirosos e de denunciar problemas que ninguém antevia
A última lembrança, literalmente a
última lembrança, que tenho do Marco
Uchôa fica numa das prateleiras da
estante do escritório que ocupa um dos cômodos
da minha casa. Ela fica entre uma latinha de
biscoitos antiga, comprada num sebo em Paris,
e uma miniatura de bicicleta. Trata-se de uma
caixinha de madeira nobre com tampo de vidro
e dividida em seis escaninhos. Foi presente que
ganhei dele num de seus últimos natais. É nela
que guardo os mais nobres chás, aqueles que o
Uchôa tanto gostava: Darjeeling, Early Grey,
Ceylon Breakfast, Jasmine Green e Blackcurrant
da Twinings, além de alguns pacotinhos de chá
marroquino da Lipton, tiragem limitada.
Marco Uchôa era gente fina. Gostava de chegar
à redação carregado de sacolas de papel
kraft e, aos pouquinhos, ia tirando presentinhos
elegantes para os companheiros de trabalho.
Sabonetes e incensos da L'Occitane, cadernos
da Papel Principal, agendas com capa de couro.
Fazia questão de trazer cada pacotinho embrulhado
para presente. Não era Natal nem Ano
Bom, não era aniversário de ninguém, muitas
vezes não havia motivo algum para comemoração
mas ele gostava de dar presentes, geralmente
cheirosos, que perfumavam o ar da redação.
- Vamos lá! Vamos fazer! Vai dar certo!
Essas eram suas palavras de ordem assim que
comunicado de uma missão, às vezes impossível:
em plena sexta-feira, a partir do zero, colocar
de pé uma boa matéria para domingo. Foi
assim durante os muitos anos em que estivemos
juntos. Matérias foram feitas. Do desperdício de
comida à morte trágica de um calouro de Medicina
à beira de uma piscina. Da vida sofrida
dos operários em Cubatão aos incendiários da
cidade de Marília. Do inferno da Febem aos
tiros de Pimenta Neves que mataram Sandra
Gomide. Da doença misteriosa de um menino
chamado Pedro ao show de Roberto Carlos comemorando
a paz em Angola. A expressão "não
vai dar" estava fora do seu Aurélio.
Bomba-relógio! A idéia de fazer uma série de
reportagens mostrando que um barril de pólvora
poderia explodir a qualquer momento foi dele.
- Vamos começar por Congonhas!
Era maio de 2001 e lá foi o Uchôa fazer um
check-up de um dos aeroportos mais movimentados
do País, para ele uma bomba-relógio.
Contou com detalhes a jornada alucinante e
estressante dos controladores de vôo, deixando
bem claro que a qualquer momento uma grande
tragédia poderia acontecer ali se não fossem
tomadas as devidas providências.
Alguns anos depois, deu no que deu.
No mês seguinte, pegou um avião para Manaus.
Queria mostrar que aquelas embarcações
que saíam do porto da capital do Amazonas,
muitas delas clandestinas, também eram bombas-
relógio. Aqueles barcos caindo aos pedaços,
transbordando passageiros e cargas, estavam
prestes a naufragar, provocando
uma grande tragédia.
Alguns anos depois, deu
no que deu.
Marco Uchôa era um
repórter com garra e um
homem com estilo. Vaidoso,
vestia-se quase sempre de
preto-e-branco. Só cortava os
cabelos espetados no Júlio do Galeria. Os sapatos
estavam sempre polidos, até mesmo quando voltava
de uma reportagem em que engolia a poeira
da periferia. A última vez que entrou na minha
sala estava assim: calça preta, camisa branca,
cabelos aparados, sapatos engraxados. Não viera
discutir uma pauta e sim anunciar que iria começar
uma luta contra uma doença cruel.
Uchôa parecia ter pela frente o maior desafio
de sua vida, a pauta mais difícil de ser cumprida,
mas a coragem era a de sempre. Tinha pela
frente uma operação arriscada, dolorosa, mas
não desanimou.
- Vamos lá! Vamos fazer! Vai dar certo!
Dali, ele saiu e mergulhou direto no mundo dos
hospitais, para passar a viver em camas brancas, a
conviver com homens de branco, tubos de ensaio,
raios X, exames de sangue, caixas de antibióticos
e analgésicos. Só voltou muitos meses depois, com
um par de muletas, mas ainda animado. Uchôa
trazia na cabeça pelo menos uma dúzia de idéias.
Acreditando que a cura estava por vir, queria
começar logo a trabalhar. Como não podia sair
correndo atrás da notícia, apresentou a proposta
de fazer uma série de grandes entrevistas com brasileiros
ilustres. A lista era longa e lembro-me bem
de alguns nomes: Oscar Niemeyer, dona Canô,
Dercy Gonçalves, Jamelão, Zélia Gattai, Dorival
Caymmi. Quando vi que todos caminhavam para
os 100 anos, Uchôa explicou:
- São pessoas que têm poucos anos de vida
pela frente e muita coisa pra contar.
Uchôa agora corria contra o tempo. Combinamos
que a primeira entrevista seria com
dona Canô. Saiu animado, sonhando em pegar
o primeiro avião rumo a Santo Amaro da Purificação.
Passei para ele um exemplar da revista
Idéia com uma entrevista brilhante que a mãe
dos Veloso acabara de dar ao repórter Marcos
Augusto Ferreira. Ele leu, me devolveu a revista
e soltou o seu último bordão:
- Vamos lá! Vamos fazer! Vai dar certo!
Pedi a ele uma sugestão de nome para a série
de entrevistas que começaria a fazer, e em poucos
minutos ele me mandou um e-mail.
- Que tal "O tempo não pára"?