Marco Uchôa: Dias de luta
Revista Fantástico - número 4

OS AMIGOS REDESCOBERTOS

Sou obrigado a confessar: nunca fui muito preocupado com as amizades. Por vezes, Anna dizia. "Os meus amigos são seus amigos. Mas onde estão os seus, as pessoas conquistadas por você?" Silêncio. Na hora de quantificar os meus, faltavam nomes. A mão não enchia. Era como se tivesse sido reprovado por não ter sido capaz, durante todo esse tempo, de mobilizar pessoas. Elas estavam sempre em torno de Anna, por causa de sua dedicação, sinceridade, simpatia, amizade pura e simples. Eu, no caso, vinha no pacote. Hoje eu encaro a amizade como um troféu. Ganha quem se dedica, quem está atento, quem faz por merecer. A maior prova de amizade que tive foi na véspera de ser operado. Ela veio numa caixa grande e colorida. Por volta das 16 horas, Jennifer Skipp, Karina Dorigo e Márcia Dal Prete, todas amigas do Fantástico, entraram no quarto com ela. Ao abri-la, me deparei com a maior demonstração de carinho que já tive na vida. Bilhetes, recados, mensagens, desenhos feitos pelos meus amigos da TV. Profissionais de várias áreas com a mesma idéia: me dar um abraço de boa sorte antes da cirurgia. Chorei como nunca. Antes, eu não conseguia fazer uma lista dos amigos. Hoje falta papel para encher o nome de tantas pessoas que surgiram durante essa caminhada. Uma caminhada que é só minha, mas acompanhada por vários olhares. Sou eternamente grato a todos...

CORPO ESTRANHO

Quase um atleta. Era assim que me sentia antes do diagnóstico. Tinha uma vida agitada, horários confusos, irregulares, e o esporte combinava com tudo isso. Quando o médico fechou o diagnóstico de câncer, porém, o Marco Uchôa esportista não existia mais. Meus passos agora eram lentos e curtos. Eu fazia força e sentia dores para levantar a perna esquerda. Olhava pela janela do meu quarto, via aquele sol lindo e eu completamente limitado por causa da perna. Sem corrida, sem esportes... Só com dor. Hoje me olhei no espelho. Fiquei nu. Não me reconheci mais. Magro. Pernas e coxas finas. Mudei rápido, em poucos meses. A massa muscular vigorosa não havia deixado vestígio em meu corpo. É assim quando essa doença bate na sua porta. Você precisa estar preparado para muitas mudanças. A primeira delas é na cabeça. Depois, seguem pelo corpo, pela alma. Cada passo, cada contração muscular é motivo para comemorar.

Preto, liso, brilhante, volumoso e farto. Esse era o meu cabelo, para agonia de meus amigos calvos. Para manter o corte, precisava apará-lo a cada 15 dias. Segundo Júlio Crepaldi, meu cabeleireiro, um mestre na arte dos cortes e penteados, "meu cabelo crescia como grama". Naquela manhã, ele estava curto, mas era necessário deixá-lo menor ainda. Na verdade, era preciso raspá-lo. Júlio não compreendeu no primeiro momento. Expliquei-lhe que a tal dor na perna era sinal de um tumor e que, com a quimioterapia, minha cabeleira perdera o sentido... Júlio não quis raspar, mas o deixou curtíssimo. Eu sabia que passaria pelo dia fatídico em que o ralo seria entupido pelos pequenos fios. Cai tudo mesmo. Não tem perdão.

CHUVA EM FAMÍLIA

Sexta-feira, abril de 2004. Anna e Victor estão com cara de chuva. Imagino ser por conta dessa batalha. Tantos dias de luta, idas e vindas ao hospital. A família toda se desgasta para segurar essa barra. Mas a doença também aproxima, e hoje sinto-me mais íntimo de todos. Um desafio como esse, às vezes, até faz chover dentro de nós. Vem aí um dilúvio.

Sentimento: aperto, receio, medo de voltar para o hospital.
Determinação: meditar e ter mais pensamentos positivos.
Vontade: abraçar meu filho, pegá-lo no colo.
Certeza: sairei vitorioso dessa luta. Faltam meses, mas vou saber esperar.
Necessidade: me alimentar melhor, comer mais e com maior freqüência para ficar mais forte.
Susto: quantidade de remédios aqui ao lado do criado mudo.
Desejo: voltar a ter autonomia.
Promessa: ser mais suave com tudo. Entender o tempo de cada um. Ser mais seguro e sereno ao mesmo tempo.
Amigos: Tê-los cada vez mais próximos.

DIA DOS PAIS

FOTOOutubro de 2005. Festa na escola do Victor. Animação, pizza... e eu de cadeira de rodas. Como o colégio é grande, foi a melhor solução. Abraços, beijos e fotos com a minha cria ao lado. Eu estava feliz. Depois da festinha, passei a tarde deitado. Senti dor. Apaguei com o potente Dimorf, remédio contra a dor à base de morfina. Acordei domingo com os pés formigando e uma sensação estranha de perda da força. Eu, que tinha esperança de voltar ao trabalho, não poderia imaginar que, naquele domingo, iniciaria mais uma batalha. Mais uma cirurgia...

Tirei as alianças, beijei minha Anna e pedi para avisar meus chefes na empresa. "Força, amor!" Saí do quarto com esta frase dela. Não suportava o vento gelado do corredor rumo ao centro cirúrgico. Cenas que aprendi a não gostar. Eu havia tido um recidiva do câncer, o tumor estava agora pressionando a vértebra T5 e eu corria risco de perder os movimentos das pernas. Acordei tranqüilo na UTI . Soube que tudo havia dado certo e que, aos poucos, recuperaria os movimentos. Que batalha!

A ÚLTIMA CARTA

Domingo, 14 de novembro de 2005
Querido Victor,
Canário, por que canário? Ora, porque você é aquele garoto que chega da escola sujo, ensopado. Adoro esse cheirinho de moleque feliz. Victor, saiba que seu pai veio cumprir uma missão. Acho que chegou a hora de me despedir e virar uma estrela. Estarei sempre lá em cima no céu, pronto para te olhar, te ouvir e te apoiar em tudo. SEMPRE!
Sempre que se sentir aflito, indeciso, olhe para o alto. Outro jeito de me ver é se olhar no espelho. Estarei refletido nele. Você é uma parte de mim. Fruto do lindo amor meu e de sua mãe, a mulher que mais me ensinou nesta vida.
Conheci o amor verdadeiro com ela, conheci o mundo com ela. Anna é o meu brilhante! O amor de minha vida. Victor, torço para que você encontre uma Anna em sua vida. Quero, de verdade, que você seja feliz, não importa o jeito.
Lembro de você bagunçando em cima da cama. Morria de rir. Meu Tuco, Victor, Tutu, Canário: serei sempre seu, meu filho. Queria deixar mais e mais para você, mas acho que os valores mais importantes desta vida são: Seja correto com as pessoas. Faça com os outros o que gostaria que fizessem com você. Respeite sua mente, seus desejos, seu corpo. Acima de tudo, seja feliz, uma sensação ótima. Senti isso várias vezes ao lado de sua mãe.
Filho, esses olhos puxados são seus, são nossos. São a nossa marca. Em você ficaram lindos! Você é belo por dentro, Victor. Sentirá saudades, claro, mas quando esse sentimento bom aparecer, lembre-se das nossas brincadeiras, do "canário", do "escatológico".
Papai encontrou uma princesa na terra. Com ela aprendeu a viver. Fizemos você com amor. Não se esqueça um só segundo de que, de onde estiver, eu estarei te olhando. E te abraçando, meu moleque querido.
Seja um homem de bem, feliz!
Seu sempre pai, papito,
MARCO UCHÔA



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