Marco Uchôa: Dias de luta
Revista Fantástico - número 4

ILUSTRAÇÕES: LUCAS LEIBHOLZ

O que a iminência da morte é capaz de provocar em uma pessoa jovem e promissora? No caso de Marco Uchôa: serenidade e uma nova (e mais profunda) compreensão dos caminhos da vida.

Em 2003, o jornalista Marco Uchôa descobriu-se portador de um agressivo tumor ósseo. Aos 34 anos, casado, pai de um filho e com uma carreira promissora – havia dez anos era repórter do Fantástico –, ele teve de parar. Lutou dois anos contra a doença. Suportou a quimioterapia, mais de 20 cirurgias, reaprendeu a andar, usou muletas. Quando morreu, aos 36 anos, deixou uma legião de amigos e um testemunho de rara coragem, na forma de um diário no qual registrou momentos de perplexidade, resgatou a importância do afeto dos que o cercavam e externou as coisas que queria que o filho soubesse. “É um diário feito com a alma de alguém que soube viver e morrer com idêntica dignidade”, diz Anna Costa, mulher do jornalista por 15 anos. Leia, a seguir, trechos condensados dessa longa despedida, selecionados por Anna para a revista Fantástico.

Meu ex-marido, o repórter Marco Uchôa, batalhou por dois anos e dois meses contra o câncer, um tumor chamado osteossarcoma. Para driblar a monotonia e entender melhor o que se passava com ele, Marco escreveu um diário entre setembro de 2003 e novembro de 2005. É uma leitura emocionante e saudosa, de textos escritos com sabedoria, elegância e transparência. Um diário feito com a alma de alguém que soube viver e morrer com idêntica dignidade. Um homem por quem ainda tenho um grande carinho e enorme orgulho por ter convivido durante 15 anos.
Anna Costa

PRIMAVERA DE 2003

Toca o celular. É Ana Holanda, mais uma amiga de Anna, minha mulher. Em menos de cinco minutos, o programa de domingo estava definido. É sempre assim. Mulheres são rápidas. Ana Holanda e a irmã, Patrícia, passariam o dia conosco. Muitas risadas, causos... Minha perna esquerda continuava do mesmo jeito. Dores constantes a ponto de impedir certos movimentos, principalmente os de abertura. Quase quatro meses de remédios, fisioterapia, acupuntura e poucos sinais de melhora. A preocupação era maior pelo fato de eu não poder mais correr, atividade física intensa que havia caído nas minhas graças. Nos últimos meses, as corridas nas manhãs de domingo e os treinos no meio de semana haviam sido suspensos.

Quando as irmãs foram embora, decidimos descansar. Não existe descanso sem água, sem banho. Victor, meu filho de 6 anos, foi primeiro, com todos os brinquedos possíveis, para dentro da banheira de nossa suíte. Só saiu dali para ficar enrolado numa toalha no meio de minha cama, de olho grudado no Fantástico. Chegou a minha vez. Abri o chuveiro, coloquei o pé direito dentro da banheira, mas o esquerdo, aos poucos, escorregou no tapete do banheiro. Aquela típica abertura de perna provocou muita dor e um grito seco imediato, estridente. Anna veio correndo da cozinha. Ao me ver naquele estado, chorando de dor, intimou: “Vamos para o hospital agora. Chega de sentir dor.” Lembro a frase dela: “Não é possível você não melhorar depois de tantos remédios e todas essas sessões de fisioterapia e acupuntura. Tem alguma coisa errada...” Seguimos para o pronto-socorro de um hospital, o mais próximo de casa. Victor levou brinquedos e a animação típica de um garoto. Ficha feita. O relógio marcava 10 horas da noite em ponto. O Fantástico seguia, com um cenário em homenagem à primavera. Vinte minutos depois, fui recebido com um sorriso por um médico plantonista japonês que, de bate-pronto, sacou a frase: “Você não é aquele repórter?” – “Sim, sou.” Ele pediu um raio X e sugeriu uma injeção para aliviar a dor. Quando a imagem foi revelada, tudo mudou. Não esqueço o espanto do médico e sua cara de preocupado com o que via: o osso esquerdo do púbis esfarelado. Qualquer um percebia por aquela imagem que havia um problema sério. Chamei Anna e não consegui disfarçar o impacto da notícia.

O médico, gaguejando, falava em inflamação ou em tumor no osso. Quando essa palavra foi pronunciada, fiz questão de traduzir – “Câncer?” Ele preferiu pedir uma tomografia computadorizada. Os olhos de Anna, uma mulher forte e segura, estavam marejados. O pequeno Victor estava assustado. Fui obrigado a conter a emoção para não assustá-lo ainda mais. Fiquei sem chão por um tempo. Pensava como seria dali em diante. Como ficaria a minha Anna? E a educação do Victor, o meu bem maior? Minha vida, como seria? Naquela noite, Anna e eu ficamos grudados no meio da nossa enorme cama, como não fazíamos há tempos.

A QUIMIOTERAPIA

A clínica de oncologia fica bem em frente ao Parque do Ibirapuera. Olho para as pessoas correndo e meu coração fica apertado. Será que um dia vou poder voltar a me exercitar desse jeito? Anna e eu entramos com o pé direito na clínica. Afinal, ali eu receberia as medicações que iriam combater o tumor e me devolver a saúde aos poucos, a cada novo frasco de soro com as substâncias químicas.

No consultório, o doutor Sérgio Petrilli, oncologista e diretor do GRAC , abriu a bolsa de couro e sacou vários artigos da internet e textos de simpósios de que seu grupo participara. Saí de lá confiante de que havia feito uma excelente escolha. Era uma sexta-feira e o tratamento já tinha data certa para começar: segundafeira, dia 29 de setembro de 2003...

OUTRO ACIDENTE

FOTOOutubro de 2003 – Minha mãe decidiu me acompanhar no tratamento. Fiquei feliz. Anna assumiu o volante. Ao fazer uma curva para a direita, olhei para trás e vi uma cena marcante. Minha mãe estava estranha. Passava mal. Fria, suada, com o rosto transformado. Anna não teve dúvidas. Algo de errado com a saúde da dona Sefisa, mulher forte, valente, que enfrentou inúmeras dificuldades para criar dois filhos na cidade grande. Tentei tranqüilizá-la, enquanto Anna se dirigia para o hospital mais próximo... Emergência. Minha mãe tivera um acidente vascular cerebral (AVC). Não acreditei no que vi. Era uma carga pesada demais para nós. Por outro lado, pensei, isso poderia ter acontecido na casa dela. Teria sido muito pior, pois não estaríamos por perto... Uma frase me perseguia: “Não é possível! Não é possível! Não é possível!” Era.

O AVC atingiu um trecho grande do cérebro. Ela foi submetida a uma cirurgia para diminuir a pressão craniana. Foi direto para a UTI e passou pela semiintensiva até chegar a um quarto. Foram 21 dias de internação. Nauseado por causa das sessões de quimioterapia que começavam a dominar meu corpo, consegui visitá-la apenas duas vezes. Fiquei assustado com o que vi. Uma mulher pálida, careca, às voltas com o fantasma das seqüelas provocadas pelo AVC. Mexia pouco o braço direito. Falava com dificuldades. Não andava. Ela precisaria de acompanhamento permanente dali em diante. Home care 24 horas, e na minha casa. Um time de enfermeiras para ficar com ela, ajudar no banho, dar os medicamentos... Foi duro acreditar que a rotina daquela casa sempre alegre e tranqüila havia se transformado tanto.

A CIRURGIA

11 de janeiro de 2004. Mãos ao lado da maca e uma faixa apertada no pulso. A idéia era impedir que o paciente tentasse retirar o incômodo tubo que lhe garantia a respiração. Um homem preso a fios, eletrodos e máquinas para indicar o seu real estado de saúde. Os números eram acompanhados com atenção por um exército de homens e mulheres vestidos com uniforme azul na sala central de controle. Enfermeiros, auxiliares, médicos da UTI do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo. Por mais que tentasse, eu não conseguia me mexer. Efeito das 14 horas de anestesia para a cirurgia que extirpara o tumor e colocara uma prótese em minha bacia. Conseguia, no máximo, mover os olhos. Deitado, a única visão possível era o respiro do ar-condicionado. Pelo reflexo no alumínio, lá no alto do teto, acompanhava o entra-e-sai. Foram quase dois dias nesse cenário. Por mais que tentem humanizar a UTI , a passagem por ela sempre deixa marcas profundas. Nem sempre no corpo, mas quase sempre na memória.

A primeira cena no quarto 1001: Anna colocara um cartaz na varanda: “Parabéns! Mais uma etapa vencida.” Minha sogra, Venir, espalhara balões pelo quarto. Meu pequeno Victor trazia um desenho nas mãos – rabiscos coloridos sugeriam um passeio que fizemos à Praia do Espelho, na Bahia, um dos meus recantos preferidos. O quarto aos poucos foi humanizado. Numa mesa de canto, chocolates, flores, livros, CD s, porta-retratos. A idéia era trazer um pouco da minha casa para aquele lugar de parede bege e zero de charme. Fazia quatro meses que meu tumor ósseo havia sido diagnosticado.



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