
Vou descrevê-lo rapidamente e você então julga se estou ou não exagerando ao chamá-lo de monstro: de uma ponta que lembra a raiz de um coqueiro muito velho sai uma espécie de braço escamado de coloração variada (Vermelho? Marrom? Cinza? Azul?), que vai terminar no que parece a pinça de uma lagosta pré-histórica. Nada disso se come: a “carne” está justamente dentro desse braço escamado, e bate em seus dentes como algo entre um tentáculo de polvo e uma pupunha desfiada.
E, pasme: é uma delícia! Superado o trauma de ver uma bandeja com várias “coisas”
dessas (apesar de ter tantos elementos, não são grandes; uma porção cabe num pratinho),
é só abrir as escamas com a unha, chupar o que tem dentro e se deleitar...
Sim, porque a maioria das coisas que parecem tão pouco apropriadas ao consumo é
muito gostosa. Uma lista rápida de guloseimas:
» Espetinhos duvidosos (kebabs?) numa estrada do Uzbequistão? Claro! Pareciam
de carneiro; provavelmente não eram. Mas quem se importa? Estavam uma delícia.
» Sorpatel em Goa, Índia, feito do melhor dos miúdos de bode e regado a muita pinga
de caju (féni)? Sim, afinal não era muito diferente de nosso sarapatel.
» Kalulu em Angola? Não é exatamente nosso caruru; aliás, não é nada parecido. Mas
é tão gostoso! Só de lembrar o panelão onde ele era preparado já me abre o apetite.
» Abacaxi com especiarias no Camboja? Nem que fosse apenas pelo visual da fruta
descascada como uma enorme pinha, espetada num palito feito picolé.
» Caldeirada de mosquito em São Tomé e Príncipe? Já tinha aceitado mesmo antes
de saber que o tal “mosquito” era só uma erva que define o sabor do guisado.
» Pancita de buey na Cidade do México? É só abstrair a imagem daquele estômago
de boi macilento sendo refogado numa enorme panela que tudo bem!
» Uma fatia de durian, a fruta mais fedida do mundo, tão malcheirosa que é expressamente
proibido consumi-la nos metrôs de Cingapura? Ora... quem disse que olfato
e paladar são a mesma coisa? (Não são mesmo, porque a fruta é bem gostosa.)
» Uma maçaroca de tartaruga com farinha servida em dia de festa dos índios
craôs na Ilha do Bananal, Tocantins? Bem, se você esquecer que a pobre tartaruga foi
cozida viva, virada de cabeça para baixo sobre uma fogueira, não vejo nada de mais...
» Doce de frango em Istambul? Não exagera, vai: o frango vem tão desfiadinho que
quase some naquela pasta que lembra, bem de longe, um doce de leite...
» Doces nas ruas de Nova Délhi? Tive de confiar num amigo indiano para dizer o que
poderia comer sem ficar automaticamente doente. Mas, fora isso, gostei de tudo!
Ah, e por falar na Índia... Não era exatamente uma comida, mas a coisa que já me deu mais medo de colocar na boca em todas as minhas viagens é algo com o inocente nome de pan – e não é “pão” em espanhol. Trata-se de um tipo de charuto bem fininho, onde várias especiarias são enroladas na folha de uma árvore – que, justamente, se chama pan. Cardamomo, um pouco de tabaco, um galho perfumado que lembra um cravo, pós de cores e cheiros variados, e, na versão que me foi oferecida, até uma minúscula folha de ouro – tudo junto dentro da folha, que você coloca entre a gengiva e a bochecha e deixa lá por horas, até sentir um efeito levemente anestesiante. Já sei, já sei: pela descrição acima você não entendeu por que eu tive tanto nojo do pan... É que você não viu a mão do cara que preparou aquilo para mim!
Tirando essa experiência – até porque, se você soubesse o que se passa na cozinha dos lugares onde come normalmente, talvez ficasse tão horrorizado quanto eu com o fazedor de pan –, queria retomar minha recomendação para que você nunca deixe de experimentar nada. Prove de tudo! Eu mesmo ainda tenho um monte de coisas que não toquei – e que gostaria de, pelo menos, provar, só para dizer como é (ou, quem sabe, escrever outro artigo desses!).
Inclusive olho de cabra.