
Aí veio a segunda mordida – e um engulho. Achei que não fosse ser capaz, mas, como só estava passando por aquele sacrifício em nome da reportagem, sempre é bom garantir uma boa imagem. Na dúvida, melhor repetir. Dei uma dentada menor, é verdade, mas a reação não foi reduzida. Foi tudo horrível, novamente.
Só que essa não foi a pior coisa que eu já comi fazendo uma reportagem. Talvez porque a imagem não fosse explicitamente tão nojenta quanto a de um ovo fecundado, poucos se lembram de que, no Timor Leste (2001), provei uma receita impensável: miúdos de macaco cozidos no bambu. No prato, parecia um picadinho... Mas só eu sabia que cheiro aquilo tinha!
Encarei, claro. Quando você está visitando um país, especialmente quando está gravando uma
matéria, e alguém prepara uma comida especial, aquilo é uma honra. Recusar é ato de grossa
selvageria, um gesto de diplomacia duvidosa, cujas conseqüências podem ser terríveis.
Aquele “mexidinho” no bambu, então, estava sendo preparado havia mais de 12 horas,
cozinhando lentamente para “despertar” ainda mais o sabor. E como despertou: quando tudo
foi despejado no prato, superei a náusea e comecei a procurar alguma coisa que se parecesse
com fígado. O que não é difícil: aquela cor meio roxo-metálica ajuda. A aparência, mais compacta
do que a de outros “órgãos”, também. E o sabor? Bem, quem comeu um fígado, comeu
todos. O de frango, por exemplo, eu tolero até hoje. Passei a infância evitando o óleo do de
bacalhau, mas não escapei – pelo menos até declarar independência alimentar – do de boi.
Assim, para mim, fígado é fígado. De macaco? Tudo bem...
Depois de ter comido um pedaço cá, outro acolá, um novo problema: o que fazer com o
que ainda restava no prato? Já havíamos gravado o necessário, então a solução foi “lembrar”
outro compromisso e bater em retirada – sem nem pedir uma quentinha.
Nesses dois casos, eu pelo menos sabia o que estava diante de mim. Na última viagem que
fiz ao Japão, porém, a culinária mais conceituada do mundo (se você considerar que o guia de
gastronomia Michelin deu mais estrelas para restaurantes de Tóquio do que para os de Paris
e Nova York combinados) mostrou que é também a mais misteriosa.
Sushi, sashimi – isso é o de menos. Isto é... quando o sashimi a sua frente não é de bode, ou melhor, de testículo de bode, um prato tão apreciado na ilha de Okinawa que é reservado para grandes cerimônias (ou para um repórter de passagem pela cidade sem medo de desafiar seu sistema digestivo; só para registrar, a sensação é horrível, e o gosto também, mas nenhum efeito colateral mais grave foi sentido depois da degustação). Se comer peixe cru já não é novidade há muito tempo, e muito menos privilégio da culináriajaponesa (já provou um bom cevice peruano?), o problema surge quando o que está por cima do arroz é uma criatura de forma indefinida, cor mesclada, aspecto viscoso – e viva! Isso aconteceu em um dos restaurantes mais conceituados de Ginza, em Tóquio, onde uma refeição (num dos 20 lugares do disputado balcão) preparada pelo sushiman Shinji Kanesaka não sai por menos de R$ 500.
Depois de uma sucessão de sushis deliciosos, preparados com um arroz tão “secreto” que Shinji sequer deixou nossas câmeras filmarem, veio o grand finale: algo identificado apenas como um molusco (tinha um nome em japonês, mas quem disse que eu estava com cabeça para registrar alguma coisa diante do que estava vendo?) se derretia sobre o montinho branco; até que o sushiman deu um breve, porém vigoroso, tapa naquele “ser”, que imediatamente enrijeceu e apontou a cabeça em minha direção (ou teria sido o rabo?). Novamente, aquele impasse que eu conhecia bem: como? Mas aí eu vi a câmera e me lembrei que não estava, como se diz em Portugal, fazendo aquilo “a desporto”. Estava trabalhando! Era melhor engolir rapidamente; quem sabe, assim, nem eu nem o bicho lembraríamos de que ele estava vivo, percorrendo os 25 centímetros (em média, num adulto) que ligam a faringe ao estômago como se fosse uma substância conhecida, uma sopa grossa, um flã! E assim foi. Por sorte, a conta me foi apresentada antes de eu poder sentir que a digestão lá embaixo passava por uma séria turbulência; e, com o susto, parti para outra pauta. Citei há pouco uma expressão portuguesa, e não foi à toa. Foi lá “pelo” Portugal que experimentei algo cuja estranheza já começa no nome: percebes. Esse nome, dito com aquele sotaque que me é tão caro, da “terrinha”, soa como se não tivesse vogal alguma: “prrrssssbshhh”. Mas isso não é o que esse monstro marinho tem de mais esquisito.