Será que ele traça?
Revista Fantástico - número 3

Quando sou convidado a falar sobre a fascinante experiência da Volta ao Mundo (e quem há de discordar que foi fascinante? Quatro meses de viagem, 17 países, quase 16 dias dentro de aviões, pelo menos 240 refeições!) e abro para as perguntas do público, invariavelmente alguém manda esta: “Qual foi a coisa mais esquisita que você comeu?”. Fácil: ovo de pato fecundado, o tal balot das Filipinas (que soa como “balúth”). Pensou num feto de pato, pensou certo!

Macabro? Nem tanto... Aliás, como exemplo de relativismo cultural, o balot é perfeito. Porque não é que os filipinos comem o prato achando que aquilo é muito exótico. Não, para eles é a coisa mais comum. Eu experimentei essa “delícia” no restaurante da praça de alimentação de um shopping chiquérrimo, num ambiente todo moderno, com cardápio de design, cercado de gente na linha “moçada”. Mas ele também é consumido como comida de rua, extremamente popular nas calçadas de Manila no fim do expediente. E todos comem com a boca boa... Ninguém acha que está degustando algo muito esquisito; ou melhor, esquisito mesmo é quem fica olhando com cara feia eles comerem algo que adoram desde crianças.

Dito isso, tenho a confessar que o tal balot é horrível. Assustador. Temerário. Nauseante. Hediondo. Repugnante. (Se quiser acrescentar mais um adjetivo de nojo à lista, fique à vontade.) E não estou nem me referindo ao gosto, pois esse eu consegui driblar, pedindo a opção do cardápio preparada com alho; na pior das hipóteses, pensei, esse seria o gosto que ficaria registrado. O pior aspecto da “experiência” foi mesmo a consistência do ovo. O pato – o patinho – já está bem desenvolvido, mas não está formado. O feto evoluiu apenas ao ponto de o bichinho ter traços reconhecíveis (biquinho, asinha, peninha), mas não até aquele estágio em que tudo isso pode ser mastigado de uma só vez... Tão tenro...

Agora faço graça, mas na hora foi difícil. Fazia um calor absurdo e aquele ovo olhando para mim só aumentou a sensação desagradável: eu tremia. Dei a primeira mordida e fiz o possível para o conteúdo dela passar diretamente para meu esôfago. Não deu. Fiquei revirando aquele emaranhado de cartilagens e material subcutâneo por intermináveis segundos, até que voltei a enxergar. E a primeira coisa que vi (salvação!) foi um copo d’água. Só com a ajuda dela consegui enxaguar tudo aquilo estômago adentro.



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