POR: ZECA CAMARGO FOTOS: PAULO VARELA
“Vai olho de cabra aí, Zeca?”
Durante muito tempo, logo depois daquela cena antológica do programa No Limite (lá
se vão quase oito anos!), em que eu servia aos participantes uma bandeja com o que deve
ser a parte de um caprino menos atraente ao paladar, ouvi essa piada de garçons dos mais
variados restaurantes. De pizzarias (“Olho de cabra com cobertura de mussarela de búfalo é>
mais caro...”) a lugares mais sofisticados (“Tenho um escargot especial aqui para você... é de
cabra!”), de lanchonetes (“Xis-olho?”) a churrascarias (“Olho de cabra ao ponto?”). A grande
ironia, claro, é que, inúmeras vezes em reportagens para o FANTÁSTICO, experimentei os mais
estranhos (e desafiadores) pratos. Mas, apesar de eu praticamente ter obrigado aquelas pobres
almas a comer, não apenas um, mas vários olhos de cabra... eu mesmo nunca comi!
Ou melhor, eu já quase comi. Em 2004, durante a Fantástica Volta ao Mundo, na escala em
Cefalônia, na Grécia, nosso produtor local lamentou, ao me responder se havia algum prato
típico que eu pudesse experimentar, que não era época de comer um prato sem igual: cabeça
de cabra assada. Em Cefalônia, ele me explicava, ela é comida por inteiro: a pele, as orelhas, o
cérebro – e, sobretudo, os olhos! “Infelizmente” (preciso explicar as aspas?), essa tradição só
acontecia na Páscoa, que já tinha ficado para trás havia alguns meses... Que pena!
Mas que não seja por falta de iguarias! Culinárias do mundo todo nunca me decepcionaram.
Sorpotel em Goa, percebes em Portugal, pancita de buey no México, balot nas Filipinas:
Cardápios de vários países sempre conspiraram para me oferecer o “melhor” da cozinha local. Ainda que a definição de “melhor”, quanto mais no que se refere ao paladar, nunca seja universal. Como eu gosto sempre de dizer quando alguém me aborda com aquela gracinha tipo “você come cada coisa, hein?”, eu realmente experimento de tudo. Mas quem disse que eu repito? Parto do princípio de que se alguém come “aquilo”, em alguma parte do planeta (e há séculos), é porque não faz mal. Se fizesse, ninguém continuaria a comer. Se matasse, então... A lógica é meio infantil, mas recorro a ela porque essa aflição – ou, melhor ainda, repulsa – que as pessoas têm pelo que não estão acostumadas a comer também vem da infância. Cada vez mais, e num mundo globalizado, tendemos a comer as mesmas coisas. E quanto mais limpo, esterilizado, antisséptico, melhor. O que eu acho uma pena... Mas antes de lançar, modestamente, meu manifesto em favor de uma cozinha mais, digamos, universal, vamos recapitular alguns dos pratos que me ajudaram a ter esse paladar tão... tão... tão sem preconceitos.