
por DAGOMIR MARQUEZI fotos DANIELA TOVIANSKY
Tatuagem é para sempre. E, de certa forma, sempre existiu. A arte de pigmentar a pele foi desenvolvida desde a era neolítica por povos e civilizações de várias partes. Em 1769, o explorador britânico James Cook registrou pela primeira vez a palavra “tatau” nas Ilhas Samoa. Marinheiros levaram o costume e o termo (adaptado) às cidades portuárias européias. Nascia a moderna tatuagem, urbana e artística. Mas está longe o tempo dos tatuadores sombrios, que marcavam a pele de prostitutas em becos sórdidos. Hoje adolescentes freqüentam salões iluminados e esterilizados ao lado de seus pais. Alguns querem caveiras e demônios em suas peles. Outros, simples estrelinhas. E não é raro que pais e fi lhos saiam de lá tatuados. Está fi cando cada vez mais comum, simples e aceitável ter o corpo pintado. Mesmo assim, cada tatuagem tem uma história
[Akemi]
Ela tatua e é tatuada. Resolveu
transformar seu corpo numa tela orgânica.
Leva essa atitude ainda um pouco
além. O corpo de Akemi Araújo Higashi
é uma tela à prova de olhares detalhistas.
Ele não parece ter nenhuma marca
dos 30 anos de idade e dois partos. Sua
primeira tatuagem foi uma homenagem
ao pai, Jaime, fi lho de japoneses, que
morreu de infarto há quatro anos. Ele
está no coração, bem visível no ombro
direito. Akemi já foi segurança de casa
noturna e revistava as freqüentadoras.
Depois, resolveu ser simplesmente mãe,
e teve dois filhos: Douglas e Diego, com
6 e 8 anos. Diego mereceu na pele alva da
mãe alguns símbolos de fartura – trigo e
pedras preciosas. Douglas, uma coroa de
rei. Akemi começou a tatuar há seis anos,
desenhando uma rosa na própria perna.
Hoje trabalha no maior salão de São Paulo
(segundo alguns, do mundo), o Led’s. Em
seu corpo esguio dançam olhos voadores,
rosas, uma gata-gueixa, o coração flechado
no peito e um grande dragão colorido
nas costas. As bordas de suas mãos também
estão tatuadas, uma letra negra em
cada uma. Quando elas se unem numa
oração, formam a palavra “fé”.