
O silêncio incomoda :: Dois dias antes do fim da viagem, fui a um almoço familiar, o aniversário
de meu pai. A essa altura, já não me imaginava mais falando. As técnicas do não-falar pareciam fazer parte de
minha personalidade. Assim que cheguei, notei que as reações de meus irmãos, cunhadas e pais eram diferentes.
Cada um enxergava de seu jeito o fato de eu não estar falando. A reação que
mais me chamou a atenção foi de um de meus irmãos. Duas horas depois
de minha chegada, gritou, desesperado: “Pára
com isso! Que suplício! Para que você está fazendo
isso?”. Minha resposta foi, naturalmente, o silêncio.
Já minha mãe mostrava-se orgulhosa com minha
determinação. Minha sobrinha de 10 anos, achando
que eu estava surdo, comunicou na linguagem dos
surdos-mudos que gostava muito de mim e que queria
que eu voltasse a falar o quanto antes.
Mas o mais surpreendente do almoço, para mim, foi o
quanto saboreei os pratos. Percebi que meu olfato, paladar
e capacidade visual tinham se multiplicado por mil. A cada
garfada, suspirava; tinha arrepios com os aromas e, visualmente, me deleitavam os arranjos
florais. Concluí que os alimentos são mais saborosos quando comemos em silêncio.
Foi uma das grandes descobertas dessa viagem.
Navegar em si mesmo :: Foi só no último dia de viagem que, definitivamente,
entrei em mim mesmo. Era uma belíssima manhã ensolarada e, depois de duas horas
de meditação, fiquei deitado no chão. Deixei meus pensamentos vagarem; passados 222, um fixou-se em minha
mente. Dele, como se fosse uma mandala, começaram a surgir dezenas de pequenos Ciros, todos dispensáveis
e alguns até deploráveis. Era como se minha mente estivesse fazendo uma faxina e aqueles Ciros fossem o
alvo. Entre eles, estava o Ciro que construía, construía, e, num só golpe de martelo, destruía a escultura de
bronze. Arrogante e orgulhoso, dizia a todos qual era o verdadeiro sentido das coisas. Um egóico que repetia
insistentemente: “E eu? E eu?”. Que mentia e se fazia passar por quem não era. Enfim, deparei-me, naquela
manhã reveladora, com todos os Ciros que meu verdadeiro coração não aceitava mais. Foi um momento
intenso, conturbado, mas profundamente enriquecedor. Notei que esses pequenos Ciros impediam os outros
Ciros de andar para a frente, de ter o mínimo de felicidade (já é suficiente) e tranqüilidade. Ao aniquilá-los,
comecei a chegar aos outros e, finalmente, cheguei ao fim de minha jornada.
A verdadeira calma :: Os três dias que se seguiram ao fim da viagem ao Reino do
Silêncio foram os mais calmos de toda a minha vida. Eu, que sempre tive muita dificuldade de
ouvir as pessoas, passei a escutá-las sem nenhum esforço. Minha respiração parecia estar em
seu devido eixo e a ansiedade que sempre me infernizou simplesmente desapareceu.
A paciência se manifestou, como se o tempo estivesse caminhando a meu lado. A compaixão,
esse bálsamo búdico que nos ensina a enxergar e compreender os sentimentos alheios, começou a se manifestar de
maneira mais clara e contínua. Foi uma experiência da maior importância. Veio num momento em que eu estava prestes
a explodir de tanto falar. Por meio dela, pude constatar todo o desgaste e a perda de energia que é a fala compulsiva.
Pretendo repetir a viagem uma vez por ano.
Até o último ano de minha vida.