
por CIRO PESSOA ilustrações PIERRO design LUCA FERNANDES
Exausto de falar compulsivamente,
um homem decide embarcar
em uma aventura transformadora:
passar duas semanas em silêncio,
sem pronunciar uma palavra
Em outubro do ano passado, fui alvejado por uma sensação inédita.
O máximo que conseguia detectar era cansaço. Mas, curioso: não era o chamado
estresse de fim de ano. Tampouco era cansaço físico ou psicológico. Era um cansaço
que eu jamais havia sentido. Naquela semana recebi o telefonema de um amigo.
Olhei para o relógio, 1h30 da manhã. Pensei: coisa boa não deve ser. Após um
minuto, entendi. Seu casamento de oito anos tinha ido para o espaço e ele precisava
conversar. Disse-lhe que estava dormindo e pedi que ligasse no dia seguinte. Ele
ainda contou que tinha duas passagens para Fernando de Noronha e me convidou a acompanhá-lo:
“Assim poderíamos conversar sobre um trágico acontecimento num lugar paradisíaco”.
Logo que acordei, lembrei-me do inusitado convite e ponderei em voz alta (solitários falam
sozinhos sem nenhuma cerimônia): “Nunca fui a Noronha, estou possuído por esse cansaço e não
tenho muito trabalho nos próximos 20 dias. Acho que vou aceitar”. Mas logo antevi uma cena
que me fez recuar: imaginei meu amigo relatando seu casamento em detalhes e perguntando se teria agido de maneira certa. Ou seja, me imaginei falando oito horas por dia. Naquele mágico
momento, descobri qual era meu cansaço: estava cansado de falar. Imaginei-me em silêncio
absoluto por 15 dias e fui tomado por uma sensação de alívio e saúde. Decidi que iria viajar,
sim, mas para um lugar paradisíaco que batizei de Reino do Silêncio.
Dois dias depois estive na redação da revista Galileu para acertar uma colaboração. Contei
ao editor meu plano de ficar 15 dias sem falar. Ele achou que a experiência poderia ser narrada
na revista e num blog diário. Disse-lhe que precisava de alguns dias para “comprar a passagem”,
“arrumar as malas” e comunicar às pessoas próximas que, por duas semanas, estaria ausente e
impossibilitado de falar. Em 1° de novembro, embarquei para o Reino do Silêncio sem a mínima idéia do que me
aguardava na empírica trajetória. Sol, chuva ou neve: estava preparado para que o desse e viesse.
Embora pudesse viajar fisicamente para um lugar qualquer, achei que seria mais fácil e prático permanecer em minha
casa, onde moro sozinho. Deixei um recado na secretária eletrônica frisando que estava impossibilitado de falar e que, em
caso de extrema urgência, a pessoa poderia me enviar um e-mail. Fiz compras para 15 dias, me cerquei de livros que estava
a fim de ler, CD s, alguns filmes e pronto. O resto ficaria por conta do imprevisível, do imponderável e do surpreendente.
A primeira mudança que notei, já no segundo dia, foi uma natural transformação em
meus hábitos cotidianos. A conversa diária, ao vivo ou por telefone, com minha namorada
estava cancelada. Aquela visitinha ao bar que costumava freqüentar dia sim, dia não,
também. Receber pessoas em casa, como fazia quase todos os dias, nem pensar: seria o
anfitrião mais antipático da história dos anfitriões. Enfim, a sensação de isolamento foi
a primeira a surgir. Mas, ao contrário do que muitos podem supor, comecei a achá-la
deliciosa e terapêutica: meu cansaço inexplicável começava a se dissipar.