Durante as filmagens de seu quarto filme,
O Inquilino Sinistro (The Lodger), rodado
na Inglaterra em 1926, Hitchcock descobriu,
de repente, que precisava aumentar a figuração
de uma cena. Sem tempo para contratar
um extra, ele próprio sentou-se à mesa de
uma redação de jornal, fingindo-se de repórter.
Três anos e oito filmes depois, voltou a
aparecer rapidamente numa cena de Chantagem
e Confissão (Blackmail), lendo jornal
no metrô, ao lado de um garoto irrequieto. Foi
aí que tomou gosto pela brincadeira, transformando
suas fugazes aparições numa espécie
de assinatura, de marca registrada, cuidadosamente
programadas para as primeiras
cenas, a fim de evitar que os espectadores se
distraíssem durante a projeção, à espera de
sua passagem diante da câmera.
Hitchcock passa por uma rua em Assassinato
(Murder, 1930), Os 39 Degraus, Festim
Diabólico (Rope, 1948), Um Corpo que Cai
e Intriga Internacional. Faz um fotógrafo
desajeitado em Jovem e Inocente (Young
and Innocent, 1937). Desfila por uma estação
de trem em A Dama Oculta (The Lady
Vanishes, 1938) e atrás de uma cabine de
telefone em Rebeca, a Mulher Inesquecível. É
visto jogando bridge num trem em A Sombra
de uma Dúvida, saindo de um elevador em
Quando Fala o Coração, bebendo champanhe
em Interlúdio, ouvindo um discurso em Sob
o Signo de Capricórnio (Under Capricorn,
1949) e carregando um violoncelo em Agonia
de Amor (The Paradine Case, 1947) e um
contrabaixo em Pacto Sinistro.
Em Tortura do Silêncio (I Confess, 1952),
ele cruza o alto de uma escadaria no Quebec,
e em Janela Indiscreta dá corda num relógio.
Surge sentado num ônibus da Côte d’Azur, ao
lado de Cary Grant, em Ladrão de Casaca (To
Catch a Thief, 1955), apreciando acrobatas
marroquinos em O Homem que Sabia Demais(1956), parado numa calçada (com um chapéu
de caubói) em Psicose (1960), passeando
com dois cachorrinhos em Os Pássaros (The
Birds, 1963), perambulando pelo corredor de
um hotel em Marnie, com um bebê no colo em
Cortina Rasgada (Torn Curtain, 1966), numa
cadeira de rodas em Topázio e misturado aos
circunstantes à beira do Tâmisa na abertura de
Frenesi. Em seu último filme, Relíquia Macabra
(Family Plot, 1976), é apenas uma silhueta,
atrás do vidro fosco de um cartório.
Por duas vezes apareceu apenas em fotografia:
de uma festa de formatura, em
Disque M para Matar (Dial M for Murder,
1954), e no anúncio de um remédio para
emagrecimento, em Um Barco e Nove Destinos
(Lifeboat, 1943). (S.A.)