Sim, ele preferia as louras (“frias só na aparência, mais
misteriosas, ladinas e sensuais”, alegava), mas a primeira
atriz sob seu comando, Virginia Valli, era morena. Como a
bailarina de The Pleasure Garden, estréia de Hitchcock
na direção, em 1925, fez melhor fi gura do que a segunda,
Nita Naldi, inteiramente deslocada no papel de uma professorinha
de aldeia em The Mountain Eagle (1926). O
que mais se podia esperar da “sucessora” de Theda Bara,
a mulher fatal mais famosa do cinema mudo?
Antes de adotar as louras, o cineasta primeiramente
aterrorizou-as. O serial killer de O Inquilino Sinistro
só matava louras, naturais e oxigenadas. Estava feita
a declaração de amor, à maneira do mestre; ou seja,
vitimizando seu tipo preferido de mulher. Mas elas,
afi nal, venceram. Em quantidade, nem se fala.
Morenas eram Nora Baring (a estrela de Assassinato,
mas prontamente alourada para sua segunda
experiência com o cineasta, Rich and Strange, 1931),
Sylvia Sidney (Sabotagem, 1936), Margaret Lockwood
(A Dama Oculta), Laraine Day (Correspondente
Estrangeiro, 1940), Teresa Wright (A Sombra de uma
Dúvida), Jane Wyman (Pavor nos Bastidores, 1950),
Ruth Roman (Pacto Sinistro) e Suzanne Pleshette (Os
Pássaros). Quase nenhuma encheu-lhe os olhos, sendo
que Laraine e Ruth lhe foram impostas pelo estúdio.
A dinastia das louras hitchcockianas inclui estrelas
do peso de Marlene Dietrich, Carole Lombard, Julie Andrews,
mas as rainhas dessa linhagem foram, por ordem
de ascensão ao trono, Joan Fontaine (Rebeca e Suspeita),
Ingrid Bergman (Quando Fala o Coração, Interlúdio,
Sob o Signo de Capricórnio) e Grace Kelly (Disque M
para Matar, Janela Indiscreta, Ladrão de Casaca). Se a
fuga de Ingrid para a Europa deixou o cineasta arrasado,
menos traído sentiu-se com o casamento de Grace com o
príncipe Rainier, que, atenuava Hitchcock, “não era um
concorrente no métier, como Roberto Rossellini”.
De todo modo, nunca se conformou em perdê-la
e mais de uma vez tentou seduzi-la a voltar a fi lmar
(ela aceitou estrelar Marnie, mas à última hora desistiu).
Àquela altura, já tentara encontrar-lhe uma
honrosa substituta – em Doris Day (O Homem que
Sabia Demais), Vera Miles (O Homem Errado, Psicose),
Kim Novak (Um Corpo que Cai), Eva Marie
Saint (Intriga Internacional), Janet Leigh (Psicose)
– transferências que, à exceção de Kim Novak, não
o decepcionaram inteiramente. Só Hitchcock não
se empolgou com Kim, entre outros motivos porque
havia preparado Um Corpo que Cai (inclusive o
guarda-roupa) para Vera Miles, desfalque de última
hora por conta de uma gravidez.
Sua última tentativa, Tippi Hedren, descoberta
num comercial de TV, parecia preencher em parte
o vazio deixado por Grace. Sádico, Hitchcock tanto
a fez sofrer como Marnie e Melanie de Os Pássaros,
física e psicologicamente, diante das câmeras e nos
bastidores, que ela nem precisou de um príncipe para
fugir dele para sempre. (S.A.)