O Brasão do Príncipe
Revista Fantástico - número 3

Enganados pelas aparências, alguns a subestimaram como algo fechado, sem “opções de leitura”. Há mais sutilezas e subtextos em seus filmes do que os olhares preguiçosos podem alcançar. Um Corpo que Cai, uma de suas obras-primas, talvez a mais deslumbrante de todas, é uma representação sui generis do mito de Orfeu. Face à obstinada procura da mulher morta empreendida por James Stewart, outro crítico (francês, evidentemente) preferiu abordá-la, socorrendo-se no mundo das idéias
de Platão, com baldeações em Parmênides.

Embora imitado por artesãos burocratas (Andrew L. Stone), talentos com luz própria (Truffaut), entusiastas aplicados (Brian de Palma) e plagiários despudorados (William Castle), Hitchcock guardava os segredos de sua mestria como dádivas pessoais e intransferíveis. E só os liberava à curiosidade pública de forma sibilina. A uma platéia de futuros cineastas da Universidade de Columbia, em Nova York, ávida por uma lição de mise-en-scène infalível, recomendou: “Jamais se esqueçam de que as escadas foram feitas para
levar as pessoas para cima e para baixo”.

Talvez estivesse pilheriando (dissimular era uma das seivas de seu savoir-faire, vício de sua formação jesuítica); talvez não, tendo em vista o uso dramático que de escadas fez, notadamente em Suspeita (Suspicion, 1941), Interlúdio, Pacto Sinistro e Um Corpo que Cai.
Meticuloso ao extremo, não improvisava nunca. No set de filmagem, limitava-se a cochichar no ouvido dos atores. Em seguida, passava a bola para o assistente e retirava-se para um canto, onde, dependendo da hora, rendia-se a um cochilo. Podia fazê-lo sem constrangimentos. Afinal, preparara tudo com antecedência, com o rigor e a calma de um jansenista. Até os movimentos de câmera já os sabia de cor ao entrar no estúdio. Plano por plano, milimetricamente traçados. Ninguém discutia. Quando, a certa altura das filmagens de Intriga Internacional, Cary Grant queixou-se de que já não estava entendendo mais nada, Hitchcock exclamou: “Ótimo! É assim que eu quero. Agora você está perfeitamente integrado em sua personagem. Ela também não está entendendo nada do que está se passando”.

Certas explicações de ordem técnica não o importunavam, ocasionalmente até o reanimavam quando sufocado por questões mais, digamos, metafísicas. Ora e vez, condescendia em visitar a estratosfera das idéias. Numa dessas visitas, gabou-se de haver driblado a Censura e profetizado o cinema pornô com o fálico simbolismo da última tomada de Intriga Internacional, na qual o trem, a cujo vagão-leito Cary Grant e Eva Marie Saint acabam de se recolher, penetra um túnel. Ou num túnel, se assim preferirem. Seus filmes, falando nisso, vazam sexo por onde podem e deixavam. Kim Novak sem sutiã debaixo da blusa em Um Corpo que Cai; Janet Leigh de sutiã nas primeiras cenas de Psicose (Psycho, 1960); a camisola deslizando pelas pernas de Tippi Hedren na lua-de-mel de Marnie: Confissões de uma Ladra (Marnie, 1964). Interlúdio gozou, por uns tempos, o privilégio de apresentar o mais longo e tórrido beijo do cinema. Num dos momentos mais tensos de Frenesi (Frenzy, 1972), tem-se a impressão de que o vilão está praticando um cunnilingus no cadáver de sua vítima (detalhe: dentro de um saco de batatas).

Hitchcock filmava cenas de amor como cenas de assassinato e cenas de assassinato como cenas de amor (e assim foi até a morte de Karin Dor em Topázio, rodado em 1969). Não bastasse, Hitchcock (esta quem sacou foi Jean-Luc Godard) filmava rostos como se fossem bundas e bundas como se fossem rostos.

Tensão – repito, tensão –, sexo e humor. Sim, Hitchcock também foi um comediógrafo dos mais inspirados. De engraçado, seus filmes tinham mais do que mães possessivas, policiais trapalhões e capangas incompetentes. Como tudo mais, o melhor de seu humor temperava-se com o subentendido (o understatement, que ele tanto cultivava) e o inusitado. Em meio ao mais feroz ataque dos pássaros a Bodega Bay, em Os Pássaros, o atendente de uma lanchonete pede à cozinha um prato de frango.

Dissimulava tanto em suas confidências que por pouco ficamos sem saber quais de seus colegas de métier mais admirava. Luis Buñuel era um deles, provavelmente o número 1. “Porque seus filmes, muito simples, sugerem um mínimo de esforço e um máximo de efeito.” Espectador parcimonioso e discreto, preferia ver filmes em sua cabine privada, nos estúdios da Universal. Se sentia falta dos gritos de pavor da platéia? Dispensava-os, com solene desprezo. “Posso ouvi-los perfeitamente quando estou filmando.”

De suas criações, se constrangido a selecionar algumas para a posteridade, conservaria Sombra de uma Dúvida, O Terceiro Tiro (The Trouble with Harry, 1956), Os 39 Degraus (The 39 Steps, 1935) e Intriga Internacional. Freud talvez explicasse a ausência, nessa lista, de Rebeca, a Mulher Inesquecível (Rebeca, 1940), o único Oscar (de melhor filme) que, em 1941, logrou conquistar. Como diretor, embora indicado cinco vezes, jamais foi premiado, gafe que a Academia de Hollywood tentou compensar, em 1968, com um honorífico e mea-culposo Irving G. Thalberg Award.

Tarde demais. Dali em diante, só fez mais três filmes, apenas um (Frenesi) razoavelmente à altura de sua reputação.



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