DESIGN E ILUSTRAÇÃO SUYE OKUBO
Seu nome valia mais do que o de seus atores.
Era um exemplo raro, único, de artista venerado
pelo grande público e cortejado pela
crítica. Ao morrer, em 1980, com a idade do
século, Alfred Hitchcock encerrou uma dinastia
quase exclusiva. Dela, em seu tempo, só
outro cineasta fazia parte: Cecil B. De Mille,
morto 21 anos antes.
Talvez não seja exagero dizer que existem
duas espécies de diretores de cinema:
aqueles que sonham em salvar ou melhorar o mundo com seus
filmes e aqueles que acreditam poder salvar e aprimorar o cinema.
Hitchcock pertencia, naturalmente, ao segundo time. E era
o melhor da espécie. Ou foi, durante boa parte dos 51 anos e 57
filmes em que se esmerou em destruir o mito de que a câmera foi
inventada para servir fielmente à realidade. E, por conseguinte,
evitar a fantasia e a inverossimilhança.
Não foi esse o único tabu por ele escorraçado do reino dos truísmos
cinematográficos. Graças a algumas de suas mais genuínas degenerações
do thriller – Um Corpo que Cai (Vertigo, 1958), Intriga Internacional
(North by Northwest, 1959), Janela Indiscreta (Rear Window, 1954), Pacto
Sinistro (Strangers on a Train, 1951) e A Sombra de uma Dúvida (Shadow
of a Doubt, 1943) –, cobriu de vergonha os que ainda acreditavam na
existência de gêneros e assuntos maiores e menores. Ainda que tivesse
sido apenas “o mestre do suspense”, ocuparia lugar de honra no
Olimpo cinematográfico; pois o suspense não é uma forma inferior
de espetáculo, mas o próprio espetáculo em estado puro – pelo menos
quando manipulado pelas mãos do mestre.
Em seus filmes, como, de resto, em qualquer um digno de crédito, o
importante não é o que (o tema, a trama), mas como (a forma narrativa).
Seu estilo, como bem observou François Truffaut, era reconhecível
até mesmo numa cena de conversa entre duas personagens. Como?
Pela qualidade dramática do enquadramento, pelo modo singular
de distribuir os olhares, simplificar os gestos, repartir os silêncios
durante os diálogos, pela arte de criar
na platéia a sensação de que uma das
duas personagens domina a outra (ou
por ela se interessa sexualmente) e
sugerir, fora dos diálogos, todo um
clima dramático preciso.
Muitos críticos, sobretudo franceses,
perceberam isso a tempo, não
se deixando levar por analistas obtusos,
que acusavam o cineasta de
farsante, cínico, frio e coisas piores.
O britânico John Grierson chegou a
desqualificá-lo como um “deslavado
ilusionista”. Um senhor ilusionista,
é bom dizer. O maior de todos.
Seu principal truque? Provocar prazer
através do medo. E vice-versa. Ou seja, seduzir
o público aterrorizando-o, fazendo-o
reeencontrar todas as emoções fortes da
infância. Freud na certa o teria entre seus
cineastas favoritos.
“Certos filmes são pedaços da vida, os
meus são pedaços de bolo”, disse-o inúmeras
vezes. Investia no bolo por acreditar que as
pessoas podem muito bem encontrar pedaços
da vida em casa ou na rua, ou até defronte da porta do cinema, sem
precisar comprar ingresso. Sua lógica era a mesma dos surrealistas: a
lógica dos sonhos, ou melhor, dos pesadelos, por sinal abundantes em
sua obra. Sua experiência com Salvador Dalí, em Quando Fala o Coração
(Spellbound, 1945), não deu certo por ser uma parceria por demais óbvia – e Dalí, por demais exagerado em seu onirismo.
A melhor face de Hitchcock tinha um sorriso moleque. Excêntrico,
em seus festins macabros o suspeito óbvio nunca era o culpado.
Eventualmente, supremo desafio, sua identidade nos era revelada
no meio do caminho. Mais: às vezes, o herói, apesar de inocente do
crime que lhe era imputado, era culpado das intenções. Sádico, sem
dúvida. Por isso, aliás, apreciava liquidar personagens justamente
quando começávamos a sentir por elas alguma espécie de simpatia ou
compaixão. Quando Claude Rains fica entregue às baratas, no fim de
Interlúdio (Notorious, 1946), paira sobre nossa cabeça a sombra de uma
dúvida: a felicidade do casal Cary Grant-Ingrid Bergman vale mesmo
o sacrifício daquele pobre senhor tão carente e sem amigos?
Tudo isso é muito mais do que poderia oferecer um simples mestre
do suspense. Truffaut, seu mais aplicado admirador, foi na mosca:
“O que distingue o estilo de Hitchcock do de outros grandes
diretores de ação violenta, como Fritz Lang ou Howard Hawks,
é a manipulação especial de rapidez ou lentidão: a preparação, e
rápidos momentos: a elipse”. Qualquer cineasta bem dotado talvez
fosse capaz de repetir a receita.
Mas faltaria o toque especial,
que Truffaut sintetizou à perfeição:
“Uma íntima e profunda
compreensão das emoções projetadas
na tela”.
Ao avaliar a obra de Hitchcock
– e sua profusão de cortes e movimentos
de câmera –, o máximo
em simplificação aconselhável é
localizá-la, como a de Orson Welles,
no ponto em que se cruzam
as vertentes do cinema vertical
(ou de montagem) de Eisenstein
e o cinema horizontal (à base de
travellings) de Murnau.