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Revista Fantástico - número 3

por Yuri Vasconcelos e Tiago Petrik       foto Eduardo Zappia

Torneios clandestinos
de luta, onde vale
tudo mesmo, se multiplicam
nos subúrbios das
grandes cidades

Quando se mudou para São Paulo, em 2003 , o maranhense Learte Azevedo, de 23 anos, jamais imaginaria que, apenas cinco anos depois, seria um dos mais temidos lutadores de vale-tudo da cidade. E o engraçado é que sua carreira começou por acaso. “Um dia, ajudei uma dona a se livrar de um assaltante. Ela me deu um cartão e, no dia seguinte, me contratou como segurança”, lembra. Daí a começar a treinar numa academia de muay thai, o box tailandês, foi um pulo. Desde então, Learte, 1,67 metro e 72 quilos, é um dos principais competidores do torneio de vale-tudo Rio Heroes, que, até meados de janeiro, acontecia, em um galpão de Osasco, na Grande São Paulo. “Fiz doze lutas e fui campeão três vezes. No último torneio, em janeiro desse ano, não deu. Cheguei na semifinal, mas fui derrotado. Tava fraco porque não tinha comido nada o dia todo, para controlar o peso”, diz.

Organizado pelo empresário americano Jason Atkins e o faixa preta de jiu-jitsu Jorge Pereira, o Rio Heroes é uma competição clandestina – por isso, o galpão foi lacrado –, que não segue as regras do vale-tudo moderno. É uma rinha humana, duramente criticada pelos dirigentes da Confederação Brasileira de Lutas Vale-Tudo. Os competidores se enfrentam sem luvas, o que potencializa ferimentos com sangramento. E os combates não são divididos em “rounds”. A luta só acaba quando um competidor desiste ou “apaga”.

As únicas regras são as de honra: nada de puxão de cabelo, dedo no olho ou pancada nos órgãos genitais. No mais, vale tudo – mesmo. “É preciso ser muito macho para subir naquele ringue. Já quebrei o dedo do pé, cortei o supercílio várias vezes e tenho 18 pontos só no rosto. Até já fui hospitalizado depois de uma briga. Doía tudo. Achei que ia morrer. Mas faço isso por amor à luta”, conta Learte, rosto ainda inchado por causa dos socos que tomou no derradeiro combate.

Além do “amor à luta”, outra coisa move Learte e tantos outros lutadores de vale-tudo: o cachê para participar dos torneios. O maranhense recebe até 1.000 reais para entrar na jaula onde rolam os combates – muito mais do que o salário que recebia na metalúrgica onde trabalhava antes de abraçar a carreira de lutador. No Rio Heroes, que é transmitido ao vivo via satélite para Las Vegas e, de lá, pela internet, leva mais 4.000 se for campeão. Assim como Learte, outros 100 lutadores já passaram pelas catorze edições da competição. “A gente tem tirado muita gente da marginalidade e dado oportunidade para muitos lutadores viverem mais decentemente”, declarou Jorge Pereira ao programa Fantástico, no começo de fevereiro.

Essa é uma característica importante do vale-tudo, esporte cada vez mais popular nas periferias e nas academias e clubes de luta de todo Brasil. No Rio, o cineasta Eduardo Brand e o produtor Gílson Val rodaram um documentário, Dias de Luta, para mostrar que por atrás daquelas carrancas assustadoras também batem corações. Foi uma tentativa de humanizar um esporte estigmatizado por sua violência extrema. Durante as filmagens, eles descobriram personagens doces e que enxergam no vale-tudo uma oportunidade para mudar de vida.

“O cara não tem nenhuma opção, nenhuma condição. Não tem projetos do governo que o ajudem”, diz mestre Casquinha, personagem do documentário. “Então, vamos nós mesmos tentar fazer nossos campeões. Vamos ocupar um espaço que o poder público deixa vago.” Registrado como César Guimarães, Casquinha, 43 anos, pratica jiu-jitsu desde os três. Quando tinha nove anos, seu pai o obrigava a dar duas voltas em torno da Quinta da Boavista, no Rio, enquanto o velho o acompanhava de carro. Era para ganhar preparo físico. Aos 14 anos, subia 300 degraus de um prédio carregando um adulto nas costas. Esse treinamento lhe valeu uma contusão até hoje. “Minha região lombar encurtou. Mas se não treinasse, entrava na porrada em casa. Podia faltar ao colégio, mas não à academia”, diz ele.

O paulistano Tiago Cardoso Silva, de 22 anos, vulgo Capataz, não recebeu treinamento tão duro, mas é igualmente apaixonado pelo vale-tudo. “Já quebrei o braço de um adversário com um chute, mas, graças a Deus, nunca me machuquei demais”, diz. Para Capataz, o vale-tudo, que passou a ser chamado eufemisticamente de Mixed Martial Arts, é um bom caminho para tirar os jovens pobres das drogas e da criminalidade. “Apesar de violento, é um esporte e uma lição de vida. É melhor lutar do que usar drogas, sair para as baladas e fazer coisa errada”, conta.

A popularização do esporte é tamanha que até mulheres o estão praticando. É o caso de Pâmela Rivelles, de 23 anos. “Curto muito lutar, mas para a mulher viver disso é difícil”, diz ela, que trabalha na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), em São Paulo. Ao longo da carreira, iniciada em 2005, já encarou até com lutadores do sexo oposto. “Como são poucas as meninas no vale-tudo, o jeito é brigar com os homens”, afirma. Loira, seios generosos e cara de menina, Pâmela fez recentemente uma ponta no filme Rinha, do cineasta paulista Marcelo Galvão, que retrata o mundo das lutas clandestinas, realizadas em ambientes fechados e onde a aposta rola solta. “Era tudo luta real. Ganhei a primeira e perdi a outra”, diz a lutadora. Pela “atuação” no filme, a loira, campeã brasileira de muay thai, recebeu 1.000 reais.

No Rio, uma das feras dos ringues é Bruna Nascimento, de 19 anos. Foi campeã brasileira em 2004 e quatro vezes estadual. Carrega o duplo estigma de ser lutadora e praticante de vale-tudo. Não que tenha vergonha disso – ao contrário –, mas demorou a contar para o namorado seu amor pelos combates. “Quando a gente se conheceu, nem falei que lutava por medo do precon­ceito e para ele não se assustar”, conta. “Depois de um tempo, contei. Num primeiro momento, ele achou que eu poderia bater nele. Mas agora, está tudo certo.” O rapaz, é claro, anda se comportando muito bem.





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