A morte do gladiador
Revista Fantástico - número 3

Cercas elétricas e câmeras impedem a fuga de internados. A medida visa a evitar casos como o ocorrido em agosto de 1995, quando um grupo de pacientes fugiu e acabou matando um motorista, ex-paciente de Sabino. Segundo o psiquiatra, os internos saíram para “trocar agasalhos e tênis por vodca”. O taxista, de 33 anos, viu a cena e tentou alertar o médico. Foi morto a pancadas na porta da clínica.

Isento de culpa nesse caso, Sabino enfrenta inúmeros problemas judiciais. No site do Tribunal de Justiça de São Paulo seu nome figura como réu em 16 processos cíveis. Um é uma execução fiscal. Outro, uma ação movida por familiares de um paciente. Os demais 14 correm em segredo de justiça. Na comarca de Atibaia, Sabino ocupa o papel de réu em mais de 40 processos na justiça e inquéritos policiais. Além disso, em seu registro no Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) não consta a especialidade psiquiátrica que Sabino alega possuir.

Só o viu duas vezes. A primeira no fim de 2006, quando o lutador teve sua primeira crise mais aguda. Ryan alternava, até então, períodos de abstinência e recaídas.

No Carnaval de 2006, passou 15 dias internado em uma clínica paulistana. “Ele não agüentou ficar mais, de tão abestalhado que se sentia com os remédios”, diz a noiva, Andrea. Amigos e inimigos reconhecem que, em suas baladas, Ryan costumava ir além da conta. Fazia uso freqüente de cocaína e álcool e, depois, recorria aos comprimidos de Dormonid, um poderoso sedativo que já tomava regularmente, para baixar a euforia provocada pelo pó. “Ele tomava um ou mais comprimidos e, mesmo assim, só dormia duas ou três horas por noite”, diz Andrea.

Certa vez, ligaram para a casa de Ryan dizendo que um de seus amigos, Betinho, estava debaixo de um viaduto do velho centro paulistano, delirando de tanto fumar crack e achando que um mendigo era seu pai. Ryan foi buscá-lo e o abrigou no próprio apartamento. “Aí ele começou a enfiar o pé na jaca outra vez”, diz a noiva. Foi então que, a pedido da mãe de Ryan, Vera Gracie, Sabino foi chamado.

Na visita, o médico recomendou que Ryan Gracie se internasse. Ele recusou. “Você precisa se limpar, rapaz”, disse Sabino. “Não. Eu me curo sozinho”, foi a resposta. Ryan preferiu desintoxicar-se na Califórnia. Viveu três meses em São Francisco. Nesse período, ficou hospedado na casa do irmão Ralph, que dirige cinco academias no estado americano, e dedicou-se aos treinos. “Quando voltou, sua mente havia dado uma superclareada”, diz Andrea. “Abrimos juntos a academia, ele voltou a dar aulas diárias e seus alunos ganharam muitos torneios.”

Em outubro de 2006, num episódio obscuro, Ryan teve a veia aorta femoral da perna esquerda perfurada pelo disparo de uma pistola 9 mm. Segundo a irmã Flávia, o tiro, acidental, ocorreu em sua casa, no Rio. Outra versão, sussurrada por praticantes de jiu-jítsu, diz que Ryan foi alvejado num bar da Barra pelo marido de uma mulher com quem tivera um caso. “O sujeito mirou nos genitais, mas acabou errando o tiro”, diz uma fonte, que pede anonimato. De todo modo, o caso foi sério. “Ryan teve uma forte hemorragia, perdeu quase todo o sangue. Chegou inconsciente ao hospital, com uma parada cardiorrespiratória, mas o trouxeram de volta”, diz Flávia. “Esse aí já era”, comentou então a enfermeira que prestou os primeiros socorros. Um mês depois, porém, Ryan caminhava normalmente.

“Foi então que me dei conta de que os problemas dele eram bem mais sérios”, diz Andrea. “Ele vivia triste e deprimido e tinha sempre Dormonids por perto.” Em meados de 2007, Ryan passou a ter surtos persecutórios menos espaçados e mais preocupantes. “Ele começou a dizer que poderiam grampear nossos telefones ou nos seqüestrar. Sentia muito medo, a ponto de não querer mais sair de casa”, conta Andrea.

“Quando ele ia a eventos, eu mandava meus seguranças junto, para que se sentisse tranqüilo.” No fim de semana anterior a sua morte, Ryan surtou novamente. “Ele achava que estava sendo seguido e pediu ajuda da polícia para voltar para casa”, diz a noiva.

Na quarta-feira seguinte, 14 de dezembro, Ryan começou a digitar o derradeiro capítulo da própria vida. Disse que iria participar de um evento. Andrea decidiu dormir na casa da mãe. Ryan partiu para a balada com amigos. “Na quinta, liguei para ele antes de ir trabalhar e o achei meio estranho. Para não brigar, deixei barato e passei outra noite com minha mãe”, conta a noiva. Na manhã de sexta, a empregada de Ryan telefonou, dizendo que ele estava passando muito mal; o mesmo surto o fustigava, só que, dessa vez, bem mais forte. “Liguei para Russo, primo de Ryan, que foi ao apartamento, mas ele tinha saído havia uns 15 minutos.”

Finalmente o localizaram no 15º Distrito Policial (Itaim). “Disseram na delegacia que ele precisava de um atestado médico de que era dependente e recomendasse a internação”, diz Andrea. Flávia voou para São Paulo e chamou o doutor Sabino. Às 20h30, Andrea falou com Ryan pela última vez. “Ele me disse que estava bem e pediu que eu fosse para casa”, ela diz. Sabino chegou às 22h30. Ryan, em bom estado, comeu um sanduíche. Aproveitando o assédio da mídia, policiais do Grupo de Operações Especiais (GOE) fizeram questão de acompanhá-lo até o IML, para o exame de corpo de delito. Ryan estava lúcido. Reclamava apenas de dores no ombro.

No IML, como estivesse algemado, colheram amostras de sangue das veias de seus pés. Sabino aproximou-se, então, com uma bandeja metálica repleta de medicamentos. Quebrou três ampolas de Haudol e duas de Fenergan e injetou cada um dos remédios numa nádega de Ryan. Depois deu-lhe um copinho plástico, cheio de comprimidos. “Não é muita coisa, doutor?”, perguntou Flávia. “Seu irmão é um leão; precisa de uma dose extra”, teria respondido o médico.



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