Será que ele traça?
Revista Fantástico - número 3

POR: JOSÉ RUY GANDRA E VALMIR SALARO

Ryan Gracie morreu
em algum momento
entre 5h30 e 6h50 da manhã
de sábado,
dia 15 de dezembro de 2007.

Tinha 33 anos. Há três vivia com Andrea Coli, uma moça graciosa, herdeira de grande fortuna, com quem deveria se casar após o Carnaval; ele trajando um terno escuro, que já estava encomendado; ela, o vestido de noiva da mãe. Ryan venerava seu fi lho Rayron, de 6 anos, fruto de um romance passageiro. Era muito querido por familiares e amigos e um mito das competições de vale-tudo. Seu nome enfeita, apenas na cidade de São Paulo, a fachada de 25 academias de jiu-jítsu, esporte que sua família, de origem escocesa, implantou no Brasil há três gerações. Ryan Gracie vencera cinco Prides, o maior evento mundial de vale-tudo, realizado anualmente no Japão. Era adorado pelos japoneses, que costumavam cercá-lo após as vitórias e, durante as lutas, gritar incansavelmente seu nome com um sotaque quase infantil: “Greiciiiii!!!”. Ryan era um herói na pátria do jiu-jítsu.

Enfim: Ryan Gracie parecia reunir todos aquelas razões que deveriam impedir que um sujeito como ele agonizasse e morresse, sozinho e arfante, sentado no chão frio de uma cela. Mas não impedem.

Sua morte foi um duro golpe para os familiares. “Que pena... Ele era um lutador excepcional”, diz Renzo, seu irmão mais velho e treinador nas competições internacionais. “Se disputasse as Olimpíadas na modalidade greco-romana, certamente nos traria uma medalha.” Suas virtudes, segundo a família e os amigos, iam muito além da combinação precisa de fúria e técnica que exibia nos ringues. “Ele era um cara de uma generosidade absurda”, afirma a irmã Flávia, cuja filha, Kyra, 19 anos, era o xodó de Ryan. “Numa família em que só os homens brilhavam, ele me deu uma força enorme”, diz a sobrinha, hoje faixa-preta de jiu-jítsu. “Quando soube de sua morte, chorei muito por dentro”, diz o lutador Victor Belfort, outra lenda do vale-tudo. “Ele fará muita falta.”

“Ryan sempre foi um menino muito amado”, diz a mãe, Vera Gracie. Passados três meses da morte do fi lho caçula, Vera ainda chora muito cada vez que ouve seu nome ou vê uma foto sua. “Eu sei que todos nós temos um tempo marcado aqui na Terra e que ninguém o ultrapassará”, diz. “Mas dói demais saber que nunca mais verei seu rosto sorridente.” Mais realista e resignado, seu pai, o lendário lutador e professor de jiu-jítsu Robson Gracie, exalta os atributos do fi lho, sem, no entanto, deletar seus traços problemáticos. Após a morte de Ryan, Robson teceu o seguinte comentário à Gracie Magazine, revista bilíngüe produzida por Carlos Gracie Jr., primo de Ryan: “Meu fi lho está descansando, dormindo, depois de viver intensamente seus 33 anos. Apesar de alguns senões, Ryan foi um guerreiro, um cavaleiro da aventura, um herói dos ringues. Ele foi um campeão e o espírito dele vai permanecer”.

Dentre todas as pessoas próximas a Ryan, a mais abatida com a tragédia parece ser sua noiva, Andrea Coli. “Ele era um bebê gigante”, diz. “Jamais cobrou um tostão dos ex-alunos que abriram academias com seu nome.” Aos 32 anos, Andrea é uma economista experiente. Fez MBA e comanda a área comercial da Itapemirim, empresa fundada por seu pai e dona da maior frota de ônibus de transporte interestadual do Brasil. Andrea, católica, vai à missa todos os domingos. “Foi pra mim que Ryan tatuou a palavra Deus nas costas”, afi rma. “Era para contrabalançar a outra tatuagem, com a palavra evil (mal) mais abaixo”. Andrea é vegetariana desde os 13 anos de idade. “Eu sempre tive pavor de comer os bichos”, diz. Os dois se conheceram em 1997, na praia paulista de Maresias. “Foi paixão à primeira vista”, ela diz.

“Começamos a namorar, mas eu estava de partida para os Estados Unidos, onde fi z faculdade.” Andrea cursou a Universidade da Califórnia em Santa Bárbara (UCSB) de 1998 a 2003. De volta ao Brasil, manteve com Ryan uma relação de idas e vindas, até que, no fi m de 2005, passaram a viver juntos no apartamento dele no bairro paulistano do Itaim. Com lágrimas a escorrer por sua face clara, Andrea diz: “Ele foi o único grande amor de minha vida”. Ryan era carioca. Nasceu na clínica São Sebastião, no bairro de São Conrado, e vivet até a adolescência entre o chamado Quebra-Mar, no início da orla da Barra da Tijuca, e o Recreio dos Bandeirantes, então uma praia erma e paradisíaca. Segundo a mãe, Vera, teve uma infância absolutamente tranqüila. “Ele sempre foi uma criatura muito carinhosa”, diz. “Quando meu pai fi cou doente, Ryan passava os dias com ele, debaixo das cobertas, assistindo à TV.”



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