Entrevista interativa com Antônio Fagundes
Revista Fantástico - número 3

Antônio Fagundes recebeu a revista Fantástico no Projac, numa terça-feira movimentada, como têm sido seus dias desde a estréia de Duas Caras, de Aguinaldo Silva. Todas as cenas da gravação exigiam a presença do ator, que encarna na novela o carismático Juvenal Antena. Nos breves intervalos, ele nos concedeu esta entrevista, sentado na mesa do bar Castelo de São Jorge, na favela cenográfica da Portelinha, reino onde Juvenal manda e desmanda. Mangas da camisa levantadas, tatuagem desenhada pelos maquiadores, baforava o charuto que o ajuda a compor a personagem. Não fosse pela serenidade e as gargalhadas com que reagia às curiosidades dos leitores, parecia ser o próprio bandido/herói da novela, personagem que considera um delicioso desafio. A seguir, suas respostas.

Marcia de Oliveira Souza Cunha, Anchieta, ES
Você vê alguma semelhança entre você e Juvenal Antena? Acha que os poderosos das favelas são como ele ou piores?
Acho que não há nenhum ponto de contato entre mim e ele: nem no jeito de falar, de andar, de vestir, nas tatuagens... Isso é o mais gostoso, o que torna a coisa mais divertida para o ator. Acredito que nas comunidades existam personagens assim. Mas a relação dos moradores com uma figura como a dele, na vida real, deve ser muito mais de temor do que de amor.

Joyce Gabriela Ferreira, São Bernardo do Campo, SP
Mesmo não tendo um cargo político, Juvenal se comporta como se tivesse. Quais semelhanças ele tem com nossos políticos?
Juvenal se comporta menos como político do que como líder. Ele mora na comunidade, torce por ela, vive seus problemas, tenta melhorar as condições de lá. Acho que isso o diferencia da grande massa de políticos brasileiros. Quase ninguém nas comunidades que os elegeram sabe onde estão ou o que eles estão fazendo.

Joyce Gabriela Ferreira, São Bernardo do Campo, SP
Como está sendo a reação das pessoas nas ruas às decisões que Juvenal Antena toma em relação aos moradores da favela?
Tem uma controvérsia em relação ao autoritarismo dele, mas sem dúvida é uma figura carismática. E ética, dentro de sua noção de ética. Seu senso de justiça, pelo menos, é claro. Ele cobra por segurança na comunidade, mas a regra é muito clara, e ele a segue. Estou lendo um livro chamado A Cabeça do Brasileiro (de Antônio Carlos Almeida), que fala justamente sobre isso. O Brasil é um país conservador e autoritário. E Juvenal Antena erra muitas vezes, mas indica que está trazendo rumos para a Portelinha.

Luma Chaves, Brasília, DF
Você teve de visitar alguma favela para entrar no clima da novela?
Não. Não acho que seja parte do trabalho. Nosso papel é interpretar as coisas, e não necessariamente conhecer como elas são de verdade. Se eu fosse interpretar um suicida, teria de me matar? Mas conhecer lugares como a Portelinha seria um crescimento pessoal.

Márcio Antonio de Oliveira, Maringá, PR
Se Juvenal fosse o presidente do Brasil, o que ele faria para arrumar este país?
Ele teria muito trabalho! O Brasil é um pouco mais complicado do que a Portelinha, mas com certeza ele daria um jeito de descobrir.

Rose Alessandra Boretti, Itapira, SP
Você se envolveria com uma stripper ou tem algum preconceito com a profissão? Prefere fazer teatro, cinema ou TV?
Nenhum preconceito. E me envolveria, sim, até porque elas costumam ser muito bonitas! Sobre teatro, cinema e TV, gosto de ser um ator servindo a diversos veículos, cada um com seus desafios e alegrias. É como basquete e futebol: os dois são jogos com bola, mas a semelhança acaba aí. Não há comparação. Divertido mesmo é fazer os três simultaneamente!



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