POR MARCO ANTONIO REZENDE FOTOS BOB WOLFENSON E RICARDO CORREA
Só há um jeito de impedir o envelhecimento:
é morrer cedo.
O paradoxo é usado pelo doutor Drauzio Varella para
mostrar que não é possível deter a marcha inexorável do tempo, e nem,
tampouco, confi ar em mandingas milagrosas capazes de impedir ou
eliminar rugas e outras conseqüências inevitáveis da maturidade. Mas é
possível, sim, envelhecer bem, com saúde e alegria de viver. “No Brasil há
mais de 16 milhões de pessoas acima dos 60 anos”, diz o doutor Drauzio.
“E a boa notícia é que elas conquistam cada vez mais qualidade
de vida, e estão mais ativas do que nunca.” Ou seja: a
geração que tentou mudar o mundo na década de 60 do século
passado está se preparando para quebrar outros tabus.
O doutor Drauzio é, ele mesmo, um exemplo dessa nova
leva de brasileiros que estão envelhecendo bem. Tem 64 anos,
1,85 metro e 78 quilos e o jeito ao mesmo tempo acelerado
e desengonçado de um vestibulando. É plenamente ativo e
tem ótima saúde. Médico cancerologista formado pela Universidade
de São Paulo, com o próprio consultório clínico no
bairro do Itaim, em São Paulo, ele fi cou muito conhecido pelo
trabalho social na periferia pobre da metrópole, em particular
no presídio do Carandiru, tema do mais conhecido de seus
dez livros, Estação Carandiru, que virou fi lme.
Mas foi graças à televisão e a sua participação no Fantástico
que se tornou uma celebridade, condição com
a qual não se identifi ca, mas que o ajuda na missão de
propagar informação preciosa sobre saúde para milhões
de pessoas – além de princípios para lá de necessários.
A saúde, acredita e insiste, não é responsabilidade do
governo, mas de cada indivíduo. E qualidade de vida é
uma conquista possível, inclusive na terceira idade.
Nesse ponto, ele sublinha uma mudança visível. Até a
primeira metade do século passado, velhice era sinônimo
de doença. Os poucos que chegavam aos 50 anos eram considerados
velhos nessa idade. Com
a difusão do saneamento básico, a
criação da penicilina e outros avanços
da medicina, a expectativa de
vida da população mundial saltou
de 46,5 anos, na década de 50, para
a casa dos 70, hoje. No Brasil, em
2007, ultrapassava a marca dos 72
anos; no Japão, era de 80,8 anos.
O novo cenário torna cada vez mais premente uma questão:
como viver muito e bem? Nesta entrevista à revista
Fantástico, o doutor Drauzio explica que a receita é
simples: mexer o corpo e evitar a vida sedentária; recusar
a auto-agressão de hábitos como fumar e beber; comer
bem e, sobretudo, pouco; e, por fi m, mas não por último,
permanecer ligado aos amigos e afetos, sem descuidar da
leitura, para manter a cabeça funcionando bem.
A primeira coisa a fazer para ter saúde é não estragála,
acredita o médico, que dirigiu por mais de 20 anos o
serviço de imunologia do Hospital do Câncer, em São
Paulo, e foi, na década de 80, pioneiro no tratamento da
Aids. Ele próprio corre todo dia de manhã, antes de ir
para o consultório, o hospital ou o estúdio de gravação.
Quando não pode correr no parque, por falta de tempo,
desce de elevador os 15 andares do prédio onde mora e
sobe as escadas, de quatro a seis vezes. “Domingo bom
para mim é domingo feio”, diz. “Corro de manhã no
Minhocão e depois vou para casa, escrever.”
Como ninguém é perfeito, ele mesmo quase foi vítima
do desleixo com a própria saúde. Dirige no Rio Negro,
no Amazonas, um projeto de bioprospecção de plantas
brasileiras, com o intuito de obter extratos naturais e
testá-los para uso medicial, sobretudo em células tumorais
e bactérias resistentes aos antibióticos. Numa
de suas primeiras viagens, deixou de tomar a necessária
vacina contra febre amarela. Infectado, esteve às portas
da morte. No leito de hospital, chegou a se resignar: “Vou
morrer aqui por puro descaso meu comigo mesmo”.
Não morreu, felizmente, e continua trabalhando, viajando,
divulgando bons hábitos de vida e se divertindo, a
caminho de uma velhice que, espera, seja feliz. Toma uma
taça de vinho tinto quando janta com a mulher e amigos
(tem dois fi lhos do primeiro casamento e é casado pela
segunda vez com a atriz Regina Braga). Viaja bastante,
sempre a trabalho. Suas últimas férias de verdade foram
em 1973, quando passou 20 dias na praia, no Guarujá.
De tudo o que faz, gosta mesmo é da clínica médica.
Também lhe dá prazer o trabalho de divulgação na televisão.
“O que me interessa é pegar um conhecimento
que é dominado por uma parcela ínfi ma da população
e levá-lo ao maior número de pessoas.” O principal
deles, claro, é o cuidado com a própria saúde. E, de
preferência, sem descuidar das vacinas.
Leia, a seguir, o melhor da entrevista.