O Brasão do Príncipe
Revista Fantástico - número 3

Às gargalhadas, os dois se arremessaram mutuamente, aos abraços e taponas nos peitos e nas costas. No passado, quando ambos tinham 12 anos, a vida os pusera lado a lado em peripécias que, não fosse por Leonardo, o príncipe dom Pedro talvez não estivesse ali, tantos os riscos que correra – podia até ter morrido. Entre outras aventuras, Leonardo ajudara Vidigal a libertar Pedro do cativeiro em que era mantido pelo vilão inglês Jeremy Blood no Morro da Conceição. E, não fosse por Pedro, ele, Leonardo – um menino de rua, de calça furada e pé no chão –, não teria conhecido intimamente o fausto da Corte, saboreado seus luxos e pompas e se reabilitado diante do então major Vidigal, a ponto de agora envergar o garrido uniforme dos granadeiros.

Apesar de tão amigos, as circunstâncias os haviam separado. Desde aquela noite de 1810, em que um se fantasiara do outro e saíram em algazarra pelas ruas do Rio, no meio de um grande cortejo popular, pouco se tinham visto. E depois se perderam por completo. A Família Real se mudara para Santa Cruz, onde Pedro se deixou ficar pela maior parte do tempo, cavalgando potros e donzelas, e só há pouco voltara a freqüentar o Paço. E Leonardo se metera em muitos alvoroços, até que Vidigal, para garantir a si próprio uma velhice tranqüila como policial, conquistara-o para sua tropa de milícias. Promovera-o a sargento e lhe dera tantas responsabilidades que o antigo estróina se tornara um soldado de verdade.

Pedro e Leonardo fizeram uma grande festa ao reencontrar-se e sentiram que, ali, renovavam seu pacto de amizade. Pedro concluiu que Didi Chérie não seria sua, porque já era de Leonardo, que chegara primeiro. Mas que importava? Ele também já chegara primeiro do que outros rivais na conquista de muitas raparigas. Além disso, fazia parte da educação dos príncipes – a noção de que eles podem muito, mas não podem tudo. E que a amizade entre dois homens vale mais do que os amores de fancaria, embora esses também tenham seu lugar.

Abraçados, Pedro, Didi Chérie e Leonardo saíram pela noite do Rio, rindo muito e entregues às pândegas e patuscadas. Na Rua da Quitanda, pularam carniça. Na Rua do Ouvidor, dançaram ao som de uma dupla de rabeca e pandeiro. Foi quando Didi Chérie, mais relaxada, pôde avaliar melhor a situação. Pedro era um belo exemplar de homem. Seus olhos de rapagão às vezes se cruzavam com os dela, e ela sentia neles a volúpia sem brida do jovem macho. Em certo momento, atravessando o Beco dos Barbeiros, estreito e escuro, o corpo dela casualmente roçou no dele. Didi Chérie sentiu em suas nádegas o brasão do príncipe, ereto e troante. Gostou. Para certificar-se de que era o que pensava, empalmou-o delicadamente no vão das calças e sua mão se encheu de algo vivo e palpitante. Pedro também gostou.

E, então, com a descoberta de que, às vezes, a felicidade pode ser maior quando dividida por três, foram para a Gamboa e ficaram até de manhã nas ruas para ver o sol nascer no mar.

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Pedro e Leonardo são os protagonistas de Era no Tempo do Rei: Um Romance da Chegada da Corte, de Ruy Castro, lançado em dezembro de 2007 pela Alfaguara e eleito pelos internautas o melhor livro de ficção do ano.



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