O Brasão do Príncipe
Revista Fantástico - número 3

Ao que, segundo Arcos, Didi Chérie teria respondido que, para ela, isso seria “délicieux, magnifique”.

Pois, enfim, ali estavam, expectantes, diante da porta vermelha do camarim. Pedro mandou que Arcos se escafedesse com o inquieto administrador e, quando eles sumiram de vista, deu com o nó dos dedos na porta da cantora. Agora, era por sua conta.

Silêncio. Pedro bateu de novo. Do outro lado, mais silêncio; em seguida, pensou ouvir vozes abafadas. Bateu pela terceira vez, mas, então, não esperou resposta. Forçou a porta, e essa, pela idade ou ferrugem, abriu-se de supetão, a grande estrondo, com tranca e tudo. Didi Chérie levou um susto que, como nos folhetins românticos, eriçou-lhe comicamente os cabelos. E, pela palpitação provocada pelo susto, ou por um movimento mais brusco, seus seios fizeram pop! e saltaram para fora do decote. Ato contínuo, ela tentou devolvê-los a seus lugares – mas, quando enfiava um, o outro voltava a saltar, como se tivessem vida própria. Finalmente, conseguiu acomodá-los e riu, nervosa, para o príncipe.

Didi estava sozinha no camarim – ou assim parecia. Pedro podia ser verde e romântico, mas sua intuição lhe dizia que ali havia dente de coelho. Ela não o recebeu com o entusiasmo com que uma artista se vê diante de um príncipe em seus aposentos. Curvou-se com desajeito para lhe fazer a vênia – logo ela, cujos movimentos no palco lembravam a elegância de cisnes ou flamingos – e, numa gafe, não o chamou de alteza, mas de monsieur. (Como francesa, talvez fosse uma fanática republicana, favorável à guilhotina para as cabeças coroadas, pensou Pedro.)

“O que significa isso, mademoiselle?”, perguntou Pedro em francês – um francês vacilante, pobre em verbos, tardiamente aprendido. “Por acaso o conde dos Arcos não vos avisou de que seríeis visitada esta noite pelo Príncipe Real?”

Oui, oui, monsieur!”, respondeu Didi Chérie, fazendo biquinho e, num gesto teatral, fechando os olhos e levando uma das mãos à cabeça. “Mas, desgraçadamente, acometeu-se-me de repente essa terrível mal de tête, que não sei mais o que faça!”

“Oh, que pena!”, compungiu-se Pedro. “Lamento pela dor de cabeça. Mas, pelo menos, deixa-me mais tranqüilo. Até há pouco podia jurar que havia alguém convosco no camarim – talvez um homem...”

“Que idéia, monsieur! Que homem ousaria entrar aqui sem meu consentimento?...”

Pedro considerou a resposta e achou-a aceitável, esquecendo- se de que ele próprio, um minuto antes, ali entrara sem o consentimento dela.

Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Quelle douleur!”, exagerou Didi Chérie.

“Vou mandar chamar o doutor Picanço, mademoiselle. É o médico real. Cuida dos problemas do senhor meu pai, o rei, inclusive de suas diarréias”, acudiu solícito o príncipe, agasalhando as mãos da menina entre as suas.

Non! Non! Non! Non! Non! Non! Non! Non! Non! Non!”, gemeu Didi Chérie ainda mais alto, desvencilhando-se. E, subitamente frágil: “Só preciso ficar a sós e em silêncio... Por favor, deixai-me! Amanhã, quem sabe – ou na semana que vem...”.

Mademoiselle”, disse Pedro, com voz grave, tomando- a pelo queixo e a fazendo ouvir. “Não posso arredar pé de vosso camarim sem vos dizer que a senhorita me causou funda impressão e que meu coração nunca mais será o mesmo depois de ter-vos visto em cena e fora dessa.” E para provar que suas intenções eram sérias: “Aceitais meu convite para tomar banho em Paquetá, um piquenique na Barra da Tijuca ou um passeio a cavalo no Joá?”.

Didi Chérie ia abrir a boca para responder quando Pedro ouviu um farfalhar de cortinas. Ele se virou na direção do ruído e, embora o vento pudesse ter provocado o barulho, algo lhe aconselhou investigar. Aproximando-se devagarinho, Pedro viu um par de grosseiras botas masculinas, com cadarços e ilhoses rotos, que saíam por baixo da cortina. Abriu-a de par em par, e o que – ou quem – se escondia por trás dela?

Um sargento de milícias, plenamente fardado e com um impróprio, mas revelador volume no lado esquerdo das calças justas. O mandrião ficara excitado só de ver a corte que Pedro estava fazendo a Didi Chérie!



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