Ao que, segundo Arcos, Didi Chérie teria respondido que,
para ela, isso seria “délicieux, magnifique”.
Pois, enfim, ali estavam, expectantes, diante da porta
vermelha do camarim. Pedro mandou que Arcos se escafedesse
com o inquieto administrador e, quando eles
sumiram de vista, deu com o nó dos dedos na porta da
cantora. Agora, era por sua conta.
Silêncio. Pedro bateu de novo. Do outro lado, mais silêncio;
em seguida, pensou ouvir vozes abafadas. Bateu pela terceira
vez, mas, então, não esperou resposta. Forçou a porta, e essa,
pela idade ou ferrugem, abriu-se de supetão, a grande estrondo,
com tranca e tudo. Didi Chérie levou um susto que, como
nos folhetins românticos, eriçou-lhe
comicamente os cabelos. E, pela palpitação
provocada pelo susto, ou por
um movimento mais brusco, seus
seios fizeram pop! e saltaram para
fora do decote. Ato contínuo, ela tentou
devolvê-los a seus lugares – mas,
quando enfiava um, o outro voltava a
saltar, como se tivessem vida própria.
Finalmente, conseguiu acomodá-los
e riu, nervosa, para o príncipe.
Didi estava sozinha no camarim
– ou assim parecia. Pedro podia ser
verde e romântico, mas sua intuição
lhe dizia que ali havia dente
de coelho. Ela não o recebeu com
o entusiasmo com que uma artista
se vê diante de um príncipe em
seus aposentos. Curvou-se com desajeito para lhe fazer a
vênia – logo ela, cujos movimentos no palco lembravam
a elegância de cisnes ou flamingos – e, numa gafe, não o
chamou de alteza, mas de monsieur. (Como francesa, talvez
fosse uma fanática republicana, favorável à guilhotina para
as cabeças coroadas, pensou Pedro.)
“O que significa isso, mademoiselle?”, perguntou Pedro em
francês – um francês vacilante, pobre em verbos, tardiamente
aprendido. “Por acaso o conde dos Arcos não vos avisou de
que seríeis visitada esta noite pelo Príncipe Real?”
“Oui, oui, monsieur!”, respondeu Didi Chérie, fazendo
biquinho e, num gesto teatral, fechando os olhos e levando
uma das mãos à cabeça. “Mas, desgraçadamente,
acometeu-se-me de repente essa terrível mal de tête, que
não sei mais o que faça!”
“Oh, que pena!”, compungiu-se Pedro. “Lamento pela
dor de cabeça. Mas, pelo menos, deixa-me mais tranqüilo.
Até há pouco podia jurar que havia alguém convosco
no camarim – talvez um homem...”
“Que idéia, monsieur! Que homem ousaria entrar aqui
sem meu consentimento?...”
Pedro considerou a resposta e achou-a aceitável, esquecendo-
se de que ele próprio, um minuto antes, ali entrara
sem o consentimento dela.
“Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Quelle
douleur!”, exagerou Didi Chérie.
“Vou mandar chamar o doutor Picanço, mademoiselle. É
o médico real. Cuida dos problemas do senhor meu pai, o
rei, inclusive de suas diarréias”, acudiu solícito o príncipe,
agasalhando as mãos da menina entre as suas.
“Non! Non! Non! Non! Non! Non! Non! Non! Non! Non!”,
gemeu Didi Chérie ainda mais alto, desvencilhando-se.
E, subitamente frágil: “Só preciso ficar a sós e em silêncio...
Por favor, deixai-me! Amanhã, quem sabe – ou na
semana que vem...”.
“Mademoiselle”, disse Pedro, com voz grave, tomando-
a pelo queixo e a fazendo ouvir. “Não posso arredar
pé de vosso camarim sem vos dizer que a senhorita me
causou funda impressão e que
meu coração nunca mais será o
mesmo depois de ter-vos visto em
cena e fora dessa.” E para provar
que suas intenções eram sérias:
“Aceitais meu convite para tomar
banho em Paquetá, um piquenique
na Barra da Tijuca ou um
passeio a cavalo no Joá?”.
Didi Chérie ia abrir a boca para
responder quando Pedro ouviu
um farfalhar de cortinas. Ele se
virou na direção do ruído e, embora
o vento pudesse ter provocado
o barulho, algo lhe aconselhou
investigar. Aproximando-se
devagarinho, Pedro viu um par
de grosseiras botas masculinas,
com cadarços e ilhoses rotos, que saíam por baixo da
cortina. Abriu-a de par em par, e o que – ou quem – se
escondia por trás dela?
Um sargento de milícias, plenamente fardado e com um
impróprio, mas revelador volume no lado esquerdo das
calças justas. O mandrião ficara excitado só de ver a corte
que Pedro estava fazendo a Didi Chérie!