POR RUY CASTRO ILUSTRAÇÃO ARTUR LOPES
Em que o jovem dom Pedro, futuro primeiro imperador do Brasil, e o menino de rua Leonardo, heróis do best seller Era no Tempo do Rei, se reencontram numa picante aventura, seis anos depois, num capítulo escrito especialmente para a Revista Fantástico
Os dois homens desceram do landau nas traseiras do teatro, no largo do Rossio. Ordenaram
ao cocheiro que esperasse e entraram por um beco
cuja única iluminação era uma lamparina com o óleo
de peixe já no fim. Usavam chapéu alto, marcial e de
aba dura inclinada sobre os olhos, echarpes que lhes
cobriam metade do rosto e capas que escondiam o garbo
das fardas – mas essas se deixavam trair pelo fulgor
das botas, a indicar que só pisavam parquetes encerados ou tinham quem as lustrasse
duas vezes por dia. Era outono, e a brisa que soprava da Guanabara trazia a promessa
de uma noite de beijos, mesmo que no ambiente sórdido e abafado de um camarim.
Como um batedor, o mais alto e robusto
dos dois foi na frente, a largas
passadas, seguido de perto pelo
outro, bem mais jovem e esguio.
Mas não havia ninguém no beco,
exceto um homem baixo e roliço,
parecendo muito agitado, que os
esperava no alto da escada que dava
para a porta dos fundos do teatro.
Ao vê-los, desceu os degraus de dois em dois, desfazendo-se
em mesuras para a dupla, principalmente para o jovem, e
produzindo sons incongruentes, como se gaguejasse. E, dobrando
o joelho, já ia se atirar para beijar-lhe a mão quando
o rapaz, impaciente, retirou o braço, dispensando a cortesia,
e comandou com voz tranqüila, mas autoritária:
“Vamos, homem, avia-te”.
O mais velho também desprezou o nervosismo do gorducho
e apenas deu-lhe um toque de leve com a bengala nas
ancas, como quem tange um muar, para que se apressasse
em conduzi-los para dentro do prédio.
O homenzinho – que tanto podia
ser o administrador quanto o vigia
noturno do teatro – obedeceu e
subiu de volta a escada, sempre se
voltando com ar de choro para a
dupla atrás dele, como se já pedindo
desculpas por alguma coisa.
O teatro era um mundo mágico
para os dois visitantes. Para o
mais experiente da dupla, o sedutor
conde dos Arcos, famoso no
Rio como homme à femmes desde a
chegada da Corte, oito anos antes,
ele significava mulheres cheirosas
e pintadas, de carnes firmes e oferecidas,
perfeitas para intermezzos
amorosos sem compromisso. Arcos
era íntimo de seus recônditos
– os do teatro e os das atrizes – e se dedicava com prazer
a transferir essa intimidade a seu pupilo, o jovem dom
Pedro de Alcântara. Sim, era o príncipe seu acompanhante
– o herdeiro do trono, daí a discrição ao chegarem
ao teatro por trás, numa carruagem de aluguel, sem os
brasões reais que o identificariam.
Não que dom Pedro precisasse de um acompanhante
para suas conquistas amorosas. Desde os 12 anos, seu
élan vital mal lhe cabia dentro das calçolas. Não havia
escrava, aia ou açafata, preta, branca ou mulata, que lhe
escapasse às investidas e ele não levasse para os escurinhos
do palácio. Ou raparigas da loura nobreza cujas pernas ele
não acariciasse nas cantatas, sabendo que elas não iriam
reagir – e, mesmo que quisessem, nenhuma delas resistiria
a seus avanços. Pelos anos seguintes, e até aquela data,
aos 18 anos, Pedro já tinha um respeitável currículo em
seu amavio, ainda mais enriquecido pelo fim das guerras
napoleônicas na Europa e com a chegada ao Rio de tantas estrangeiras – inglesas, austríacas, espanholas e, naturalmente,
francesas. Principalmente francesas: atrizes, cantoras,
coristas, cabeleireiras, modistas, doceiras, perfumistas
– uma plêiade de mulheres bonitas, safas e independentes,
leitoras de Molière, Laclos e Restif de la Bretonne. Ao fim
e ao cabo, não se tratara apenas da abertura dos portos,
mas de uma respeitável abertura de pernas.
Donde, nesse terreno, não se pode dizer que Pedro
precisasse de muita ajuda. O conde dos Arcos é que,
desde o começo, se dispusera a dar-lhe assistência e
emprestar-lhe sua tarimba e proteção. (Mas não fazia
isso por desinteresse – quando o trono pertencesse a
dom Pedro, quem sabe ele, Arcos, não seria o ministro
plenipotenciário que o marquês de Pombal tinha sido
para o rei dom José I, bisavô do garoto?)
Ao penetrar no teatro, Pedro lembrou-se por um instante
de que não apenas a voz e a beleza de uma jovem
cantora o atraíam naquele lugar, mas também a própria
vocação. Poucos sabiam, mas ele tinha um imenso jeito
para a música: cantava lindamente, tocava quase todos
os instrumentos e compunha pequenas
óperas – mas sabia que,
por ser quem era, nunca poderia
apresentar-se numa casa pública.
Por isso, ao passar pela coxia e vislumbrar
de relance o cenáculo e as
galerias – a récita terminara uma
hora antes, e o elenco, os operários
e os espectadores já tinham
ido embora –, pensou que aquele
seria o destino de seus talentos:
apresentar-se apenas em sua imaginação,
incorpóreo, invisível, para
uma eterna platéia vazia.
Ignorante das fantasias do discípulo,
Arcos, sempre a passo acelerado,
conduziu-o pelos corredores
que davam para os camarins, até se
deterem diante de uma porta forrada com papel crepom
vermelho. Era o camarim de Didi Chérie, a jovem estrela
da companhia francesa de ópera que havia duas semanas
lotava o Teatro São João e a quem o príncipe fora assistir
na véspera, apaixonando-se à primeira vista.
Fosse outro, e não alguém como Pedro, com tantos pendores
musicais, dir-se-ia que o que mais o encantara em
Didi Chérie tinham sido seus olhos pretos e expressivos,
a boca provocante, de lábios carnudos, os seios rijos e em
ponta – num decote que mal conseguia contê-los – e as
pernas que ele adivinhava lisas e longilíneas sob as várias
camadas de panos. Mas, além dessas óbvias qualidades,
ele tivera igual sensibilidade para a voz de cristal e a musicalidade
da artista, para sua leveza em cena e graça como
atriz. E de tal forma que dera a seu amigo Arcos a missão de
procurá-la nos bastidores e comunicar-lhe que o Príncipe
Real gostaria de expressar-lhe sua admiração numa visita –
a sós – na noite seguinte, uma hora depois do espetáculo.