O Brasão do Príncipe
Revista Fantástico - número 3

UM DESSE, DOIS DAQUELE /// É claro que subestimamos o impacto que a mudança teria na cabeça de Pedrinho. No primeiro ano, sempre que chegávamos para buscá-lo na escola, as outras crianças brincavam em grupo e Pedrinho estava lá, imerso num universo criado por ele. Fingia que era um bicho – um dia tigre, outro, um macaco, outro, uma mistura de lêmure com hipopótamo.

A falta de amigos com quem pudesse se comunicar chegou a afetar o crescimento dele; o ritmo felizmente foi recuperado no ano seguinte, quando ele desembestou a falar mandarim e virou meu tradutor ofi cial. Mesmo! Era ele quem intermediava as conversas com a empregada, com o motorista, o caixa do supermercado. Não que eu me acanhasse com a falta de vocabulário.

Até decorar os nomes de todos os pratos de que gostava, a solução no restaurante era pegar o garçom e ir passando de mesa em mesa, ver o que os outros estavam comendo e ir apontando e pedindo: um desse, dois daquele...

Logo, os chineses, que nesse ponto são muito parecidos com os brasileiros, percebiam que a gringa estava procurando comida e começavam a oferecer seus pratos para eu provar e a discutir entre eles o que era melhor para nós. Como também vinham correndo oferecer doces e brinquedos cada vez que Pedro chorava na rua, porque caíra ou estava fazendo manha.

Se há alguma coisa que o Brasil poderia ganhar copiando da China é o valor da educação. Há milênios a educação é a grande forma de ascensão social; no império não havia nobreza nem transmissão hereditária de títulos. Então, a única forma de subir em poder era por meio de concursos públicos, que iam se tornando mais sofi sticados quanto mais elevado o posto almejado. Esse apreço à educação não foi abalado nem pela revolução cultural, que perseguiu e matou muitos professores, cientistas, médicos, a fi m de acabar com o “velho conhecimento”.

Preparo-me para voltar à China em agosto, para cobrir as Olimpíadas. Sei que desembarcarei no novo aeroporto, verei o novo estádio, lindo como nenhum outro, o novo centro de natação, o novo céu, rasgado com edifícios que acabam de subir com suas linhas arrojadas, cortando o céu escuro de poluição.

E lembro uma frase repetida entre os laowais (gringos) de Pequim: se você fi ca uma semana na China, quer escrever um livro. Em um mês, um artigo. Mais de um ano, se cala, porque entende que não sabe nada sobre esse mistério.

A paciência chinesa não é virtude. É conformismo. Diante da ditadura do pequeno ofi cial, não há possibilidade de reação. Paciência... Sem rancor, porque, segundo a medicina chinesa, o ressentimento faz mal ao fígado.

Fazer xixi de cócoras. Os banheiros ocidentais ainda são raros. A arte de usar os banheiros chineses merecia um artigo inteiro para explicar... Barganhar. A grande lição de economia da China é que o valor real de uma mercadoria é a expressão monetária de quanto o comprador está disposto a pagar. Não há preço fi xo no império do meio.

Comer pimenta. Em algumas províncias da China, especialmente Yunnan e Sichuan, os pratos não vêm com pimenta. A pimenta é que vem com carne, frango, pato. Vermelha e redonda, a pimenta hua jiao tem sabor mentolado e o poder de amortecer a boca.

Planejamento. O pensamento de longo prazo é o segredo do sucesso chinês.



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