O Brasão do Príncipe
Revista Fantástico - número 3

SEM “VIVO” ///// Em 2005, além de nossas carteiras de jornalistas estrangeiros, recebemos uma lista dos locais que poderíamos visitar. A China não era completamente fechada, mas ainda era muito fechada. Por isso, há um mês, quando vi a imagem banal de um repórter fazendo uma transmissão ao vivo de uma estação de trem lotada (por causa de viagens canceladas durante uma nevasca em Cantão), chamei correndo Paulo Zero para ver o momento histórico. Antes disso, tomadas ao vivo na China, os tais “vivos”, só podiam ser feitas de sacadas altas de edifícios, longe do risco de que se dissesse ou mostrasse algo contrário ao governo.

Senti na pele essas restrições. No começo de 2005, nos pediram um “vivo” de Pequim, de algum local emblemático, para comemorarmos o aniversário da TV Globo. Eu não tinha a menor idéia de como essa missão seria quase impossível. Foram semanas de negociações, enquanto nossos colegas jornalistas estrangeiros riam de nossa ingenuidade de perder tempo tentando.

Dezenas de faxes, conversas, almoços, pedidos e intervenções depois, estávamos escrevendo a história da abertura das comunicações na China. Era a segunda vez que uma equipe transmitia ao vivo de um local público no país. Uma abertura pequena, controlada pelos policiais, mas que foi comemorada não só por nós, mas por todos os correspondentes estrangeiros.

O “vivo” da CNN mostra que, neste período pré-olímpico, o governo chinês está deixando transitar mais informações da China para fora. Mesmo assim, ainda é forte a censura no sentido inverso e, principalmente, lá dentro.

REURBANIZAÇÃO FEBRIL /// A velocidade da abertura política na China é inversamente proporcional à das transformações econômicas. Em pouco mais de dois anos, testemunhei o país subindo do quinto para o segundo lugar no ranking das maiores economias mundiais. E não era preciso ser expert em economia para entender esse ritmo frenético.

Fui morar num condomínio que tinha uma única rua de acesso, sempre engarrafada, e muitas pequenas vielas cortando o bairro. Hoje as vielas desapareceram, junto com os prédios antigos, uns monstrengos horrorosos do tempo da habitação para todos. Foram-se, também, os charmosos sujos hutongs, os quarteirões de casas baixas com pátio interno. No lugar, um agulheiro de arranha-céus, um condomínio colado ao outro, cada um com uma dúzia de prédios residenciais, comerciais, academia de ginástica, restaurantes, lojas, todos ocupados e numa atividade febril.

Aí você pensa que já sabe tudo sobre a China, passa uns meses fora, volta e descobre que as novas obras, que estão fi cando prontas agora, têm acabamento extremamente sofisticado. Abrigam lojas que são muito chinesas e muito universais. Poderiam estar numa rua charmosa de Londres ou Paris.



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