POR SÔNIA BRIDI DESIGN LUCA FERNANDES
Fala-se muito que as Olimpíadas serão como uma festa de debutantes da nova China – uma nação que surge para
o mundo bela, rica e poderosa. A segunda economia do planeta. O país que, no ano passado, contribuiu mais para o crescimento global do que os
Estados Unidos, feito que nenhum outro alcançara desde os anos 30. O país que tirou 450 milhões de pessoas da miséria em 30 anos; o país responsável
por três quartos da redução da pobreza no mundo no século passado.
O contraste é imenso se pensarmos que, quando a China começou
suas reformas, há menos de três décadas, era uma nação de miseráveis. O sistema educacional, o parque industrial, a
infra-estrutura, tudo fora destruído pela nefasta revolução cultural de Mao Tsé-Tung. Também
em 1979, o Brasil preparava a abertura política após 15 anos de ditadura. Nosso país enfrentava
uma infl ação galopante, mas tinha indústrias, portos, aeroportos, estradas. Um grau de desenvolvimento
incomparavelmente maior do que os chineses poderiam sonhar à época.
Por isso, quando, em 2004, fomos à China fazer uma série de reportagens – sem saber
que, poucos meses depois, nos tornaríamos os
primeiros correspondentes de uma TV latinoamericana
a se instalar no país –, senti um
misto de admiração e inveja. A China miserável
que eu trazia em meus conceitos já não existia,
ou, como no Brasil, sobrevivia em bolsões paralelos.
No Porto de Qindao (Tsingtao), entendi
por que eles estavam se tornando uma potência
mundial. Perto dele, nosso Porto de Santos
parece um atracadouro chinfrim.
E olhe que Qindao nem é o maior da China.
Viajamos por estradas que, no Brasil, só encontram
equivalentes no estado de São Paulo. A
China hoje tem 56 mil quilômetros de rodovias
expressas com mais de duas pistas. Só neste ano
o país investirá US$ 200 bilhões em ferrovias –
entre elas a do trem-bala, que em breve ligará
Pequim e Xangai, suas duas maiores cidades.
MAPAS MENSAIS /// Xangai é a vitrine das
reformas. E faz jus. A cada mês é editado um
novo mapa da cidade, porque as vielas vão desaparecendo
e ruas e avenidas, sendo abertas.
Nós, brasileiros, nos orgulhamos da
construção de Brasília; mas já imaginou
o que é derrubar uma megalópole
e reconstruí-la, com 17 milhões de
moradores dentro?
Visitamos indústrias que poderiam
ser mais mecanizadas, mas eram
obrigadas pelo governo a ocupar
mão-de-obra intensiva: milhares de
costureirinhas, de uniforme amarelo,
concentradas no trabalho, explicam
o domínio chinês nos têxteis melhor
do que qualquer estudo acadêmico.
Ou a linha de montagem de motores
elétricos: tudo manual, tudo tocado
por aquela gente ganhando pouco, trabalhando
jornadas intermináveis.
Trabalho escravo, pelos padrões europeus
e mesmo pelos brasileiros. Mas
pode-se dizer que é trabalho escravo se
a China vive o maior caso de promoção
social da história da humanidade? Durante
a revolução industrial, o padrão
de vida do europeu aumentava, em
média, 50% ao longo de uma geração.
Na China, aumenta 10.000%!!!
NOVA MUSCULATURA /// Mas,
em janeiro de 2005, quando chegamos
de mudança à China (Paulo Zero, cinegrafi
sta e meu marido há 11 anos,
Pedro, nosso fi lho, então com 3, e Maria
de Fátima, a Fafá, babá de Pedro,
que saiu do Piauí diretamente para a
terra de Pu Yi, o último imperador
chinês), muito desse progresso ainda
era duvidoso e pouco conhecido no
Brasil. Desde então a economia chinesa
cresceu em média 11% ao ano.
A China foi estendendo seus braços
pelo mundo e adquirindo uma nova
musculatura política. Há dois meses
estive na Argélia e vi imensas obras,
todas fi nanciadas pela China e erguidas
por operários chineses levados para o
norte da África. Os investimentos nesses
países têm por objetivo garantir o
fornecimento de matérias-primas para
a indústria chinesa, do petróleo argelino
ao cobre chileno, passando pela soja
e o minério de ferro brasileiros.
O exemplo mais duro do pragmatismo
chinês é o Sudão. O governo
sudanês está promovendo uma limpeza
étnica na província de Darfur
usando armas e dinheiro chineses.
Em troca, exporta petróleo. Os chineses
também garantem, graças a
seu assento permanente no Conselho
de Segurança da ONU, que todas
as medidas para barrar o genocídio
sejam derrotadas. E é por causa de
Darfur que a China pode enfrentar
um boicote às Olimpíadas, uma
mobilização que nem mesmo o
terrível recorde de desrespeito
aos direitos humanos do país
havia conseguido despertar.